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terça-feira, 4 de outubro de 2011

Carlos Gomes no Mapa do Brasil (42)

Filhote de Quati
animalzinho típico do continente americano

Giovanni di Pietro di Bernardone nasceu em Assisi, Itália, onde morreu. Não fosse o seu inigualável amor pela humanidade e seu respeito por todas as criaturas, provavelmente não seria um símbolo tão importante para o planeta.
Mas não é na cidade homônima de Assis, no Estado de São Paulo, que iremos encontrá-lo como nome de rua ao lado de Carlos Gomes, homenageado neste simpática cidade (veja aqui no mapa). Infelizmente não se lembrou de Bernardone na cidade.
Disse infelizmente, porque a visão positiva do homem e da natureza de Bernardone impregnou profundamente a sociedade nos séculos 12 e 13 (nasceu em 5 de julho de 1182 e morreu em 3 de Outubro de 1226). Sua presença se estende por toda a Renascença e é uma personalidade imprescindível para entendimento ainda hoje do que é caridade, compreensão e simplicidade, independente de ligações religiosas.
Isto mesmo. Estamos falando de São Francisco de Assis, relembrado sempre por sua afeição aos animais(*).
De fato, não foi em Assis que encontramos São Francisco e permanente homenageado Carlos Gomes. Mas, em Maceió, no Estado de Alagoas, onde uma caminhada de uns 20 minutos leva da Rua Carlos Gomes a outra que leva o nome do Santo (para ver o caminho, veja a Rota no mapa). Uma oportunidade interessante para se refletir acerca das igualdades, do homem e do meio ambiente.


(*) dia 4 de outubro é o Dia Mundial dos Animais. 

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Nota de Rodapé (18)

Imagem obtida do comercial da Hope

Segundo o dicionário Aurélio, primitivo é relativo aos povos não letrados, que vivem em sociedades geralmente caracterizadas como de escala menor, organização social menos complexa e nível tecnológico menos desenvolvido do que as sociedades ditas civilizadas, e vistos pelo evolucionismo social (q. v.) como representantes de um estado social e mental supostamente mais próximo da condição original, natural, da humanidade, ou dela sobreviventes. Os antropólogos rejeitam o termo nesta concepção  por ser considerado cientificamente errôneo e decorrente de pressupostos ocidentais etnocêntricos o que parece claro e compreensível.
Sob este ponto de vista, não é correto dizer que o Brasil ainda mantém comportamentos primitivos em vários setores. Mas podemos dizer que o país, em alguns segmentos, possui pessoas com uma visão muito curta da complexidade abrangente da sociedade brasileira.
Temos, na cultura, formas de expressão que são típicas e enraizadas na maneira de enxergar determinados acontecimentos que  chegam via mecanismos de comunicação deste tempo, a cada vez mais rapidamente e com maior precisão. 
Há comportamentos de determinadas sociedades que para os  brasileiros são considerados deprimentes, inadequados, bárbaros e são rejeitados com toda a veemência, tais como a castração de mulheres em alguns países da África, as restrições aos direitos civis (voto, à livre circulação, ao simples direito de dirigir um carro, entre outros), trabalho escravo, punições descabidas como chibatadas, pedradas por conta de quebra de protocolos religiosos e tantos outros absurdos assim considerados, mas ainda praticados nos seus países de origem.
Não há na sociedade brasileira, pessoa esclarecida que não comemore as várias conquistas das mulheres, soando absurdo imaginar que seja aceitável qualquer forma de coerção, constrangimento ou abuso que restrinja direitos por conta de sexo ou sexualidade. 
Sabe-se também que se convive com realidades extravagantes (esta é apenas uma palavra elegante), bastando para isto que se vejam as noticias que recheiam os jornais, desde barbaridades com garotas e garotos presos em celas com marginais nas cadeias públicas do Pará sofrendo abusos e estupros sob os olhos cegos das "autoridades", prostituição infantil em várias cidades, inúmeros casos de violência contra a mulher. Não é necessário, portanto, ir muito longe, nem atribuir desvios apenas aos distantes países do Oriente e África. Num raio de não mais que um quilômetro das casas é provável que se tais abusos, comportamentos inadequados, constrangedores e inaceitáveis.
Ao mesmo tempo, há uma capacidade enorme de rir de si próprios, fazer troça, brincar com os excessos. Aliás irradiar os excessos para que eles se transformem em piada e provoquem aquilo que é uma das marcas mais saudáveis na cultura brasileira: o riso. 
Há uma tênue barreira entre o que é engraçado apenas por ser e aquilo que não é, esbarrando no puro preconceito, na discriminação.
É preciso, entretanto, tomar cuidado para não se cair no exagero. O episódio recente com o filme publicitário de lingerie com a modelo Gisele Bündchen é o que me parece uma falta de bom senso e de limites do censor (no caso uma Secretaria do Governo Federal). 
Ora, qual brasileiro leva a sério que uma mulher vá usar uma lingerie bonita para "cegar" seu parceiro e disfarçar uma besteira que tenha feito com o cartão de crédito? Ou o inverso: em sã consciência, um homem de cuecas, "sarado", faz sua companheira acreditar em qualquer besteira que ele fale? 
Respeite-se o direito à opinião, afinal sempre haverá quem não goste disto ou daquilo, mas, no caso em questão, há de sobra argumentos para defende-lo.
Todo casal que não tenha restrições próprias da sua maneira de pensar, pratica joguinhos sexuais na intimidade, usando e abusando da sensualidade. 
Por outro lado e além disto, quem não vê na Gisele Bündchen um modelo de comportamento, de maternidade, de discrição, de retidão, profissionalismo e beleza?
A Hope - a agência de propaganda e seus criadores - não escolheram uma modelo descartável, fútil. Nada disto. Escolheram a Sra. Gisele Bündchen referência mundial de qualidade.
É preciso uma mentalidade muito atravessada e limitada para imaginar que aqueles comerciais (veja aqui), bem humorados, devam ser retirados do ar por uma suposta ofensa às mulheres. Nesta ótica, os homens poderiam se sentir ofendidos por serem tratados como idiotas. As mulheres não precisam deste tipo de tutela já que possuem instrumentos elementares como, por exemplo, decidir não mais comprar produtos de determinada marca caso se sintam ofendidas. 
Senhoras lindas, feias, impecáveis, gordinhas, professoras, profissionais liberais, empresárias, empregadas domésticas, operadoras de telemarketing, todas, todas, todas, divirtam-se, comprem suas calcinhas brancas, pretas, vermelhas, coloridas, façam o que quiserem com sua intimidade, seduzam seus maridos, falem mal deles, brinquem com eles, façam carinho, sejam carinhadas, amadas, sem se sentirem ofendidas por um comercial de televisão que só lhes garantiu o direito de serem o que quiserem na sua intimidade sem que pessoas de qualquer Governo lhes digam o que deve ser feito. E cobrem destes mesmos governantes que trabalhem - isto sim - para impedir que fatos escabrosos como aqueles que invadem nossos jornais e que são da esfera do DEVER DO ESTADO não mais aconteçam. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Dilemas Contemporâneos da Cultura (78)

René Magritte - 1955

Em 1999, foram criadas as OSCIPs e as OS (inicialmente em São Paulo). Conceitualmente, siglas de qualificação de entidades (empresas privadas sem fins lucrativos) no âmbito Federal (OSCIP) e Estadual (OS).
Hoje as Organizações Sociais atuam nas mais variadas áreas como um braço burocrático do Estado, agilizando procedimentos, imprimindo a velocidade conceitual das empresas privadas.
Mecanismos desta natureza foram adotados em larga escala também na Cultura. 
As Organizações Sociais são contratadas para implementar programas específicos a partir das políticas definidas pelo Estado e são constituídas com um organismo com escopo de ação definido.
Ao serem contratadas, as OS têm autonomia de gestão cumprindo metas estabelecidas no seu contrato a partir de diretrizes definidas pelo Estado.
Não imaginemos que isto significa afastamento do Estado do processo ou mesmo redução da estrutura do Estado ao mínimo. Experiências nesta direção foram desastrosas.
Continua cabendo ao Estado a definição das políticas e programas que deseja implantar, o estabelecimento de diretrizes, o acompanhamento e avaliação do trabalho de seus contratados, determinando correções de rota, aperfeiçoamento de políticas, até substituindo uma OS por outra quando for o caso.
A OS não substitui o Estado, mas dialoga com ele, presta serviços como uma extensão autônoma. Se por um lado ao Estado cabe o papel político, às OS o entendimento deste significado.
A contribuição das Organizações Sociais pode ser muito grande na medida em que atuando com foco em determinados segmentos consegue auxiliar o fortalecimento das suas atividades fim junto à sociedade.
Da mesma maneira, é imprescindível a percepção do Estado da resposta da população a esta ou aquela iniciativa e a criação de respostas ativas a estas demandas.
Desta complexa matriz, fortalece-se todo o sistema. 



(*) Em outubro a obra 16 de Setembro de Magritte estará exposta na Tate Liverpool e certamente será alvo de visitação dos fãs do roqueiro ingles Marc Bolan, falecido em 16 de setembro de 1977, após sua namorada ter estourado numa arvore o carro onde iam . Além das datas, das árvores, a lua também era crescente. Diferente de hoje em que a lua é uma transição da Crescente para a Minguante. Coisas da Cultura que mistura tudo isto.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Dilemas Contemporâneos da Cultura (77)



Certa vez, escrevi isto acerca da Cultura:
A Cultura é forma de atestar ao Homem sua humanidade, de demonstrar-lhe que é capaz de se emocionar por amor, de ver sem medo, te ter esperança. É um bem coletivo que ratifica a sua humanidade. E não tem cor, não se curva às dislexias intelectuais, às veleidades políticas.  Chamar a Cultura de processo é diminuí-la, muito embora sejam os processos a aproximar dela as pessoas. Sua intangibilidade só está na arrogância de quem a vê como propriedade para poucos, ou naqueles que se imaginam capazes sozinhos de levá-la a todos.


A dra. Maria Helena Pires Martins escreveu:
A cultura do entretenimento, ao oferecer o mundo como espetáculo constante, a ser consumido e descartado a cada novo momento, propicia a falta de reflexão, a imitação de padrões às vezes inadequados às necessidades sociais do grupo ou pessoais, a confusão entre realidade e ficção. Como exemplo, podemos citar a eleição a cargos públicos de tantos profissionais do entretenimento, sejam eles cantores, atores de cinema, ou apresentadores de programas sensacionalistas de rádio ou de televisão, como o caso de Afanásio Jazadi (eleito deputado estadual por São Paulo em 1986) que se promoveu à custa de exibir o mundo do crime.


Os textos continuam valendo?



Toda segunda feira, publicarei alguns sobre idéias a respeito da Cultura de forma a promover a reflexão sobre os múltiplos assuntos tais como cultura letrada, cultura oral, cultura regional, cultura e arte e por aí vai, sem qualquer pretensão enciclopédica.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Dilemas Contemporâneos da Cultura (62)


À recente polêmica envolvendo a OSB juntam-se várias opiniões e artigos.

Trata-se de uma situação delicada, sujeita a vários pontos de vista, não se tratando apenas da observação de direitos e deveres, do poder de mando, ou da discussão do que cabe no modelo privado da Fundação.

A névoa das audições - é só uma névoa - está em primeiro plano, porque o estabelecimento de critérios e formas de avaliação é muito mais difícil do que parece. A essência desta discussão está nas relações de trabalho, do trabalho artístico, mas mais do que isto, concentra-se no novo modelo, em que as relações de poder mudaram radicalmente.

Já há algum tempo venho sinalizando aqui a necessidade de novos protocolos para a gestão na Cultura. Inevitavelmente, as orquestras brasileiras deverão passar por estas mudanças. 
Afinal, estamos tratando de uma necessidade premente de valorizar os profissionais da área cultural e isto exige a adoção de novos mecanismos. Vejam bem: necessidade de valorizar os profissionais e não o contrário. Neste entendimento, trata-se de estabelecer novos modus operandi que permitam melhor definição dos níveis de qualidade, dos objetivos de curto, médio e longo prazo, processos negociados de estabelecimento de metas.

Para alguns pode parecer uma posição conservadora, mas não vejo outra saída que não a negociação entre as partes. A construção do processo a partir do diálogo é mais difícil, exaustivo, demorado até, mas é o que consolida.

Tudo funcionará bem se os dois lados perderem o suficiente.

Parece uma afirmação insólita? Pode ser, mas observe à sua volta: o que de duradouro existe que não tenha sido através de um longo amadurecimento? Você verá que é tudo assim. Mesmo quando se trata de uma nova ferramenta de internet, por exemplo, sua consolidação se dá ao longo do tempo e a partir do esforço de muita gente. 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Nota de Rodapé (12)



Relutando muito, decidi romper o silencio autoimposto para o merecido descanso do blog. Afinal, a saída do maestro da Cia como dito no seu blog em 4/01/2011 é um fato relevante para o gênero e tendo comentado neste blog o seu início (13/11/2009), é natural que o faça neste instante de encerramento.


Antes porém, um novo e longo habeas corpus preventivo: não me proponho a ser crítico de ópera (não mais lembrarei isto no blog); não sou xenófobo (acredito e defendo a arte sem fronteiras, o aprendizado com quem sabe etc.); não tenho inveja (ou qualquer coisa parecida) do projeto, bastando reler as razões porque discordei de alguns aspectos da sua implantação; sempre mantive uma relação pessoal de recíproca cordialidade com o maestro; e, finalmente, desnecessário afirmar em outras circunstâncias, defendo a ópera como gênero e como atividade de formação de plateias, de formação e aperfeiçoamento de artistas e técnicos.

Acho lamentável que qualquer iniciativa cultural deixe de dar certo.

Produzir ópera num modelo de circulação nacional é uma tarefa complexa, possível dentro de alguns parâmetros de produção e solucionável desde que sejam tomados certos cuidados artísticos e técnicos.

Li e reli várias vezes o post do maestro sobre sua saída. As entrelinhas não batem, quase tanto quanto não batiam as informações quando do lançamento em novembro de 2009. 


Como seria possível a estreia de um espetáculo poucos meses depois do lançamento com um projeto baseado numa cenografia eletrônica de animação com duração de mais de duas horas? Como conciliar tantos intérpretes (eram vários regentes nacionais que se transformaram em estrangeiros durante a execução do projeto)? Como conciliar agenda dos teatros, muitas vezes utilizados para várias outras atividades? 


Como colocar no mesmo planejamento, uma produção estanque baseada em cenário virtual (projeção de vídeo) e teatros de tamanhos tão desiguais, com estruturas físicas tão díspares? Como trabalhar com uma equipe contendo basicamente estrangeiros na criação, com cenógrafo distante da nossa realidade, sem conhecimento prévio dos nossos teatros, das suas perspectivas de plateia? Que direção sobreviveria engessando o cantor a trabalhar em função da animação? De que maneira conseguir uma iluminação de qualidade considerando equipamentos disponíveis no país e as diferentes condições dos teatros e o inevitável conflito de fontes de luz em contraponto? 


Como transformar a tal solução de “efeitos cênicos de grande comicidade e teatralidade inalcançáveis em encenações convencionais“ como foi dito no lançamento, de balela fantasiosa e previsível em algo que não fosse uma direção sofrível, engessando os bons cantores, de resultado sonolento, desigual, irregular? Como produzir tudo isto sem experiência anterior na produção de espetáculos, na circulação, numa tarefa de tão grande porte? 


De que forma administrar tudo isto, incluindo comunicação, transporte de pessoas e coisas, hospedagem, alimentação, e o volume de recursos envolvido, aparentemente adequado para tal iniciativa, dentro das normas contábeis normalmente aceitas, nas regras do sistema de convênios, ou da própria Lei Rouanet? 


A curiosidade de aprender com as soluções não resistia ao bom senso. Tudo indicava que estas e outras questões primárias não estavam respondidas na origem e que o projeto, sem isto, estaria condenado a ter inúmeros problemas artísticos, com riscos de extrapolar em custos etc. Acontecido o caos, não adiantaria atribuir a culpa às circunstâncias comerciais ou a alguns dos agentes das perguntas acima, mas à falta de planejamento adequado, à estratégia adotada e mesmo aos dirigentes da iniciativa.

A ópera é um grande ensemble que depende de uma relação dinâmica entre regente, orquestra, cantores, coro, cenotécnica, iluminação já que tudo isto se relaciona ao vivo, com variações de interpretação a cada dia. Esta é a mágica da ópera: a cada dia nova percepção da música, do texto teatral. Já o cinema, a grosso modo, são imagens com uma dinâmica própria, mas fixas no tempo, com uma trilha fixa. Sem entrar na tecnicidade dos timecodes, dos playlists de correção, coisas óbvias para quem é do ramo, o partido adotado não é solução viável para integração entre desenho animado e grupos artísticos diferentes atuando ao mesmo tempo. Conheço pelo menos três soluções bem sucedidas, convergindo as duas linguagens, todas mantendo o espetáculo, a dinâmica da ação sob controle. 


Fiquei intrigado quando do lançamento e incomodado com o resultado, porque, naturalmente, considerando o meu envolvimento com a ópera, torci pelo projeto. Justiça seja feita à qualidade artística dos cantores e da orquestra formada por músicos atuantes em vários outros conjuntos. 


O projeto seguiu em frente, com mudança da cidade de lançamento, adiamento, e certamente, como depreendido do texto do maestro, com todo o tipo de erros decorrentes da incapacidade de se resolverem coisas insolúveis como aquelas indagações iniciais.

Espero que prevaleça a sensibilidade e racionalidade e que os problemas da Cia não venham a prejudicar a difícil tarefa de se obter recursos para a produção de ópera no Brasil onde, graças à diversidade estrutural, a convivência de modelos híbridos de produção (privada e estatal) é imprescindível.

A ideia de se fazer uma companhia de ópera (várias) no Brasil não é nova. Já participei de algumas discussões sobre isto algumas vezes e, com recuos e avanços, tenho a certeza de que há estratégias possíveis para que isto aconteça. Neste momento mesmo, existem ações em curso. Um ano e meio antes da Cia apresentei projeto de circulação a várias entidades, incluindo, por razões óbvias da popularidade, o Barbeiro de Sevilha (veja a marquinha), com proposta artística e técnica radicalmente diferente do modelo colocado em prática (pela cia) e discutimos com várias pessoas o caminho para se viabilizar o projeto. Não se avançou naquele momento e, claro, outros títulos deverão ser pensados para o futuro.

Tudo isto com uma estratégia criativa adequada à realidade brasileira, tão difícil de ser compreendida, mas muito estudada, com características e necessidades mapeadas e identificadas.

Saber que ao tempo certas questões estruturais serão resolvidas se mantivermos a coerência, a discussão e o diálogo multidisciplinar, de certo modo compensa os incômodos que persistem em aparecer quando se lê nas entrelinhas da “carta de despedida do maestro”. Registre-se que lamento não ver entre os “agradecidos” pelo menos um nome de um artista nacional, de um regente que seja, o que me parece, converge com os desvios de rota do projeto. Temos no Brasil artistas e técnicos de grande qualidade e vários regentes com maturidade e experiência em ópera, sendo perfeitamente possível agregar esforços para projetos desta natureza, o que certamente contribui para manter melhor controle de custos, redução de despesas etc.

Também não concordo com a redução do povo a “compradores de geladeiras”.

O processo é este mesmo. Depois da geladeira, do celular, será o perfume. E qual é o problema? Com recursos, cabe ao indivíduo o direito de escolha do que deseja adquirir. Não se impõe Cultura goela abaixo, e isto não significa que o direito de acesso não deva ser franqueado. Pelo contrário, é papel do Estado a franquia de direitos sociais e políticos. 


Trocando em miúdos, é papel estimular e promover a alfabetização para as artes, desenvolver programas de formação, estabelecer parcerias com iniciativas sérias, sólidas, comprometidas com estes objetivos sociais. Numa sociedade com problemas estruturais tão graves nas áreas da educação, da saúde, de meio ambiente, na cultura não é diferente. Temos que correr contra o tempo, fazer reformas em todos os níveis, lutar arduamente para reduzir diferenças, superar a fase das geladeiras e promover o desenvolvimento individual em benefício do coletivo. Trabalhar nas bases, falar, ensinar, exibir, propor, franquear acesso, demonstrar as convergências possíveis entre as artes, favorecer o direito de escolha.

Não podemos duvidar disto, nem podemos nos afastar disto. Podemos discutir, acrescentar, dialogar. Mas sem duvidar, nem ficarmos à distância. A “cultura das elites” só é vista assim onde se errou e se erra ao não favorecer, ampliar ou estimular o acesso, seja através da linguagem ou ações mais simples como, por exemplo, de ingressos gratuitos quando possível e em proporcionalidade ao dinheiro público envolvido.

A ópera – a Cultura Erudita – é um bem precioso demais para ficar ao sabor das veleidades individuais, devendo ser tratada como um bem coletivo, de ratificação dos princípios elementares dos direitos do cidadão.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Dilemas Contemporâneos da Cultura (48)





Em 23 de Dezembro de 2002 escrevi o artigo abaixo. Lá se vão oito anos.
Não mexi uma vírgula do texto original e, como num jogo dos sete erros, proponho que o texto seja lido, revisto e o que de fato mudou e esteja em funcionamento seja apontado como tal. 


Cultura, essa pedra no sapato.
Ao contrário do que se apregoa ser este um país dotado de imensa vocação cultural, é com reticências de bastidor que se avaliam os cenários da atividade para os próximos anos. Tanto é assim que o pouco que se sabe do futuro são idéias generalistas a menos de 10 dias para posse de novos governos. Patinha feia, órfã indesejada, prima pobre de organismos de maior orçamento, sabe-se que a Cultura tem pouco dinheiro no chamado orçamentário da União, Estados e Municípios.
Os orçamentos somente são pequenos por equívoco de posicionamento e falta de visão de conjunto da realidade da própria cultura. É fácil para um governante alegar faltas de verbas pelas urgências sociais como se fosse um instrumento dissociado da política de desenvolvimento. É comum questionar-se salário de músicos se comparados à necessidade de remédios. Para que editar livro, se precisamos de merenda? Porque dar bolsa para um artista plástico, se precisamos de uniforme? Para que desapropriar um prédio importante do patrimônio, se o assentamento na reforma agrária é mais urgente? 
Nesta linha e com desculpas inomináveis são engavetados projetos de fomento, investimentos urgentes e fundamentais para a mudança de patamar da Cultura encarada como atividade supérflua por pura ignorância. Tão triste quanto isto é a ausência de um projeto político claramente discutido.
Ainda que existam bases para discussão e prática, está distante o entendimento de que Cultura é via prioritária de desenvolvimento o que significa ser encarada como atividade de caráter estratégico para gerar empregos, ampliar receitas para o Estado, ampliar a consciência de cidadania, auxiliar a afirmação da identidade, inserir a produção cultural no mercado global e ampliar a visão de mundo da população. A Cultura gera empregos diretos (artistas, produtores, técnicos) e indiretos (transporte, alimentação, serviços, comércio, trade turístico); amplia receitas com os pagamentos de impostos relativos, com a entrada de divisas (circulação no próprio país e exportação para o exterior) gerando renda; é parâmetro de identidade e reconhecimento da participação na coletividade, no sentimento de união patriótica, na valorização dos bens individuais e coletivos.
A inserção da produção no mercado global favorece o reconhecimento das características culturais e receptivas do país (estados e municípios por extensão) para turismo de captação, ao mesmo tempo em que amplia os horizontes e possibilidades da população por via referencial.
Estas já seriam razões suficientes para repensar os volumes de recursos disponíveis para o setor. Entretanto temos avançado pouco até por conta de uma visão limitada da origem e aplicação destes mesmos recursos já que não há uma integração da Cultura no complexo de prioridades do Estado que a enxerga como uma maneira de “agradar artistas”. Afora a manutenção das atividades meio (administração) é fundamental dotar a gestão da Cultura de recursos que permitam sustentar as atividades-fim. Estas devem contemplar obrigatoriamente a ocupação dos equipamentos destinados à cultura, ao fomento de atividades nos vários segmentos (teatro, ópera, dança, música, artes plásticas, artes integradas, arte popular, humanidades, artes audiovisuais) criando-se mecanismos de aperfeiçoamento profissional e formação através de bolsas, programas de intercâmbio, política de restauro, manutenção de patrimônio histórico entre outros. 
A Cultura não pode ser tratada como um corpo estranho e isolado do conjunto de outras atividades do Governo em quaisquer dos níveis da Federação, nem dissociada da participação do Congresso e Senado na busca de soluções objetivas. Apenas para simplificar e no que parece mais óbvio, deve atuar de forma integrada, por exemplo, aos organismos de Educação e Turismo para que no mínimo aqui os benefícios visíveis estejam correlacionados. Para obter sucesso, o Estado deve realizar todos os esforços para viabilizar recursos de fontes patrocinadoras para a produção cultural tais como empresas privadas, entidades internacionais, programas de financiamento entre outros. Da mesma maneira, implementar a participação coletiva no processo. Nos programas de incentivo, por exemplo na lei federal, nos limites negociados com a Receita, poder-se-ia criar um mecanismo que permitisse à pessoa física destinar um percentual do seu imposto a pagar para determinado segmento da cultura de sua escolha. Estes valores constituiriam um fundo de fomento (ou acrescidos ao próprio FNC-Fundo Nacional de Cultura) no orçamento da Secretaria responsável pela área escolhida pelos contribuintes. Da mesma maneira, as empresas que não têm volume de imposto a pagar suficientes para patrocinar projetos, não têm vocação ou acesso para utilizar este mecanismo não poderiam também destinar parte do seu imposto para áreas de sua simpatia? Não seria este um mecanismo democrático e de formação de cidadania num segmento de importância estratégica? Não seria este um dos parâmetros para que se definam em que segmentos carentes de recursos, interesse mercadológico ou de visibilidade junto à população o Governo deveria investir? Ainda falando da lei federal, não seria mais democrático se empresas que detém seus institutos próprios fossem obrigadas a investir parte dos recursos incentivados nos programas públicos e na produção privada atuando fora de suas instalações? Não seria mais lógico deixar que a palavra patrocínio fosse usada apenas quando se tratam de recursos não incentivados, retornando ao mercado o diferencial tão importante para as empresas realmente patrocinadoras?
Mas deve ficar a Cultura apenas limitada a esta lógica? Obviamente não. Muitos produtos culturais podem ser realizados sob critérios de administração que permitam seu financiamento, retorno para investidores privados, sob incentivos para exportação e, nestes casos, deve o Governo apoiar o desenvolvimento de bancos de negócios, formação de agentes, programas apoiados por política de turismo, entre outros mecanismos. Outro aspecto importante é o fomento à criação e produção, aqui incluindo a formação de mão de obra técnica e artística. Nesta direção, a política de patrimônio e sua ocupação sustentada podem ser um alicerce importante para o surgimento de novos núcleos produtores nas artes e, nesta matéria, cabe ao Estado buscar e apoiar a busca de recursos para que as manifestações culturais inclusive étnicas possam ser abrigadas e sustentáveis. Se no âmbito da gestão dos Estados e Municípios ainda não se informatizaram bilheterias, não se criou regularidade de produção e de programação anunciada antecipadamente, não se modernizaram os conceitos de gestão, não se estabeleceram parcerias com produtores privados, não se ampliaram os programas de assinaturas, de participação coletiva em grupos de mecenato, são estes os pontos de partida urgentes.
 Em termos objetivos isto basta? Também não. A circulação de produtos culturais e acesso aos bens de raiz precisam ser democratizados e para isto devem ser utilizados todos os recursos tecnológicos disponíveis. As ações culturais devem ter desdobramentos, disponibilizadas regularmente através dos meios de comunicação; devem ser estabelecidos critérios para a circulação de teatro, ópera, dança; criar e manter orquestras em associação com entidades, associações, núcleos; privilegiadas as artes em produção nos Estados e municípios, sendo estimuladas as artes potenciais a partir de núcleos primários existentes ou da sua difusão através de exposições, reproduções, uso de tecnologia; as artes plásticas devem ser apoiadas com a ampliação e criação de pólos regionais de circulação e salas receptivas; a arte popular deve incentivada ao cooperativismo e associação a estruturas de turismo na comercialização regional e difusão externa; são urgentes os mecanismos para distribuição do cinema nacional, inclusive estimulando a criação de cineclubes (privados, cooperados ou até no âmbito dos próprios equipamentos do estado); estabelecer mecanismos para que oficinas culturais tenham atividade regular nas áreas do conhecimento e de forma a que estes núcleos de fato formem mão de obra; o pensamento deve ser difundido sob todas as formas possíveis (palestras transmitidas por satélite, edição de livros, seminários etc) em convênio com universidades, entidades sociais etc.; a preservação do patrimônio deve receber todo o estímulo do estado, sem paternalismos quando patrimônio privado, com rigor quando patrimônio do próprio estado, tendo como principal orientação a ocupação destes espaços, mantidas suas características e vocações originais ou adaptando-as a ocupações correlatas, de forma a preservar a memória geopolítica, histórica e artística; promover a circulação de bens priorizando facilidades para escolas, educadores e idosos; estabelecer política de circulação para o exterior estabelecida  em conjunto com a política de turismo.
A circulação de bens deve ser um mecanismo consciente em todas as esferas e as políticas públicas neste segmento têm que ser prioridade em todas as áreas do poder econômico, sejam associadas aos programas de exportação de produtos industriais e manufaturados, sejam aos programas de turismo, programas de tecnologia e outros.
A presença do Estado é inevitável e é na prática associativa com a produção cultural e na sinergia destas forças decorrentes que quaisquer mobilizações farão sentido para o futuro. A difusão do conhecimento deve ser encarada como rotina e o Estado deve fazer todos os esforços para que a população entenda que ele está a serviço da Cultura e não o inverso que é risco de cairmos no populismo demagógico. A partir daqui é necessário que se enxergue a Cultura e o direito ao acesso à informação cultural como necessidade elementar. A cultura, no extremo, deve ser entendida como indústria limpa que depende do potencial criativo do homem e para tanto deve ser desenvolvida e incentivada. Para isto precisa ser tratada com planejamento, decisão, objetivos e metas. Caso contrário, será por mais tempo uma pedra indesejada no sapato.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Dilemas Contemporâneos da Cultura (47)

A bola de Cristal (com a caveira) - 1902
John William Waterhouse

Nestes próximos dias serão definidos quais serão os Secretários de Cultura dos Estados e o Ministro da Cultura. Como conseqüência disto, todos aqueles que trabalham em escala nacional ou mesmo apenas nos Estados renovarão suas esperanças de colocar em prática os seus projetos.
Este é provavelmente o mais complexo Dilema Contemporâneo da Cultura porque não há nenhuma garantia de continuidade dos programas até aqui implantados ou mesmo perspectivas concretas de melhoria no cenário da produção cultural. Em resumo, não há garantia de que haverá investimento concreto na produção cultural favorecendo o desenvolvimento de idéias em programas de formação e de difusão da artes. Somente o tempo nos dirá.
Pode parecer vago, mas enquanto nada acontece, vamos nos dedicar a este 47 º Dilema. Isto mesmo, são 47 textos propondo discussões na Cultura. 
Nada mais concreto que a ausência de qualquer certeza e quando caímos no reino da especulação, nada melhor do que uma olhada nos oráculos. Pelo menos ali podemos encontrar respostas ou nos divertirmos um pouco.
Vejamos: 4+7= 11. Muito bem. Os dois 1 somados dão 2. Portanto, temos um par de 1 e um número 2 neste simbólico Dilema.
Pitágoras foi um pensador importante por configurar a matemática para os séculos seguintes a ele. Segundo Nicômaco, os números devem ser estudados à luz da Aritmologia (estudo metafísico, filosófico dos números) e da Aritmética que trata do estudos científicos e abstratos, absorvendo inclusive uma técnica (Cálculo) que permite avançar na concretude dos números. Confuso? Nem tanto. A coisa pode ficar mais complicada se associarmos o 2, por exemplo, ao conflito original da dualidade. O 2 é eco, reflexo, conflito, contraposição e Imobilidade momentânea que se produz quando as forças opostas são iguais. Atribui-se a Moderato de Cádiz, matemático espanhol, esta certeza velada: “O 1 a idéia de identidade, de unidade, de acordo e simpatia no Mundo; o 2 a idéia do ‘outro’, a discriminação e a desigualdade.” 
Se ficarmos nesta linha, podemos dizer que com o 2 (do 47), estamos "lascados". Mas, como todo oráculo tem seu lado "A" e o seu "B" (observe que os oráculos são regidos pelo 2), temos que pensar nos aspectos negativos e positivos do número
Os aspectos negativos do nº 2 são a dúvida, submissão, passividade, dependência e insegurança. Em se tratando de Cultura, isto é péssimo.
Já os positivos nos dão certo alento: tato, diplomacia, paciência, cooperação e companheirismo. Melhorou muito e este é o 2 que queremos...
Os números mestres (aqueles que vêm aos pares) nos dão outras informações. Vejamos o 11.
Seus aspectos negativos são a desonestidade, fanatismo, mesquinhez, desorientação e preguiça. Os positivos intuição, simpatia, paciência, perfeccionismo, humanitarismo, espiritualidade e percepção.
Na bíblia o 2 é o par perfeito. Dos animais puros, Noé levará para a arca sempre pares (Gn 7,2).  E perfeição é o que precisamos.
De um modo ou de outro, fica a dica: vamos ficar de olho, porque tudo pode ser o que quisermos que seja. 
Dois dedos cruzados, um galhinho de arruda atrás da orelha e um vazinho de espada de São Jorge podem ajudar.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Nota de Rodapé (11)



Acaba de ser aprovado o Plano Nacional de Cultura pelo Congresso. O Plano será agora encaminhado para sanção presidencial e, a partir daí , colocado em prática.

Vale acompanhar a regulamentação e as várias possibilidades que se apresentam nesta nova fase que certamente ainda irá provocar discussões, principalmente no que se refere à aplicação das novas regras da Lei Rouanet.

A expectativa da produção cultural é a maneira concreta como será utilizado o Fundo Nacional de Cultura e o acesso aos recursos disponibilizados, inclusive os critérios de utilização dos recursos  da PEC 150 que prevê a fixação mínima de orçamento da Cultura nos governos Federal, Estaduais e Municipais na ordem de 2,5%, 1,5% e 1% respectivamente.

É um passo importante por trazer uma perspectiva de avanço na atividade cultural, principalmente nas artes eruditas que tiveram atenção em menor escala nos últimos anos.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Dilemas Contemporâneos da Cultura (37)


The rebel of Fine Arts
Fernando Vignoli

Ontem perguntava no blog a respeito do que fazer com relação aos candidatos e à atual situação da Cultura no Brasil, especialmente a Cultura Erudita.

Hoje, José Serra recebeu em São Paulo a classe artística representada pelas várias entidades naquele que foi chamado de Encontro com a Cultura Brasileira. 

Todos nós, culturalistas, procuramos o tempo todo encontrar argumentos que justifiquem o investimento na atividade cultural. Seja pelo viés da cidadania, identidade, da auto-estima, seja pela demonstração de que representamos uma importante parcela do PIB brasileiro.

Serra foi contundente e, como se espera de um estadista, de um político cuja prática é regida pela ética pública, para o desenvolvimento e para um Estado moderno, resumiu tudo o que disse sobre as vantagens de se investir na atividade cultural com a frase "mesmo que não tivesse benefícios complementares, é preciso investir em Cultura. Cultura é um bem em si ".

Serra lembrou os investimentos que fez na Prefeitura e no Estado. O volume de dinheiro aplicado é muito grande, supera os 600 milhões no Estado e utilizado para o desenvolvimento de programas que visam a difusão, fomento e formação. Mencionou a necessidade de se cuidar dos equipamentos, e do processo de estruturação das atividades tais como a mudança do MAC para o antigo Detran, do Museu da Lingua Portuguesa, do investimento na Pinacoteca, no novo Teatro da Dança (que insisto em sugerir que se chame Teatro da Luz pela vocação mais ampla que o espaço possui), nas oficinas, nas Fábricas de Cultura, nas Viradas Culturais, na difusão da Ópera.

De fato, o que vemos é um constante esforço no Estado de São Paulo. Muito ainda precisa ser feito, porque sabemos que as exigências são enormes, não pelo setor em si, mas pela necessidade e abrangência da franquia de direito ao acesso. O modelo de São Paulo pode perfeitamente ser ampliado em termos nacionais, levando-se em consideração as peculiaridades regionais, as forças criadoras instaladas nos vários estados, as capacidades técnicas e artísticas, as perspectivas de intercâmbio real, o aprendizado coletivo das diferenças.

Não vale a pena lamentar dificuldades até aqui. Trabalhar, reedificar é melhor.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Dilemas Contemporâneos da Cultura (22)

Nebulosa Rosetta
foto NASA

No post de ontem propus uma indagação a respeito do Trabalho Artístico como um alargamento da finalidade intrínseca da natureza humana e a gestão de Cultura sendo uma questão estrutural de responsabilidade sobre a vida.
Sem os excessos de provocação a que estas afirmações poderiam conduzir, neste contexto o gestor de Cultura é o principal agente modificador do status do cidadão na medida em que favorece a fruição do Trabalho Artístico em todas as esferas.
Dirão os céticos que não é viável propor expectro tão amplo como linha de abordagem na gestão cultural exatamente pela natureza plural da atividade artística.
Claro que não podemos discordar disto. Sejamos razoáveis.
Mas, mesmo na razoabilidade, propor todas as esferas possíveis é diferente de afirmar ser inviável propor todas as esferas.
Conhecida a natureza do Trabalho Artístico e reconhecido pelo gestor, será a estrutura instalada e as expectativas de conjunto que conduzirão nesta perspectiva.
Isto não significa transferência de responsabilidades. Continua sendo do gestor o encargo de facilitador do acesso aos bens culturais e precisa ser avaliado por isto.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Dilemas Contemporâneos da Cultura (21)

A criação de Adão - Capela Sistina
Michelangelo Buonarroti - 1511

Tomando como ponto de partida a fundamentação expressa na Encíclica de João Paulo II sobre o Trabalho Humano (Laborem Exercens) "o trabalho constitui uma dimensão fundamental da existência do homem sobre a terra".
A relação entre homem e trabalho se dá como atividade essencial e própria da natureza humana, na medida em que entendermos ser o trabalho uma ação premeditada, planejada, modificadora do meio ambiente, do próprio homem e a favor dele. Como dirão os leitores da Bíblia, está em Genesis 1,28 a determinação "enchei a terra e submetei-a", sendo esta submissão a tal relação modificadora.
O que difere o homem dos animais é a sua perspectiva de opção criativa para realização do seu trabalho.
Cheguei ao mote.
A criatividade é portanto uma questão essencial para o entendimento do trabalho. Os físicos que me perdoem, mas o trabalho aqui admitido é diferente do T (o tau grego) e nada tem a ver diretamente com força e deslocamento.
A dimensão deste "trabalho" é a da essência humana, o que o torna típico do homem e apenas dele.
Ampliamos ainda mais o conceito se nos referirmos ao Trabalho Criativo e, por extensão, ao Trabalho Artístico.
Podemos concluir que o Trabalho Artístico é o alargamento da finalidade intrínseca da natureza humana o que torna a gestão de Cultura uma questão estrutural de responsabilidade sobre a vida.

Voltarei ao tema.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Carlos Gomes no mapa do Brasil (15)

Luiz Molz - Banquo - Macbeth
foto: Paulo Lacerda

- Mas, Mãe... Oito e meio?
O menino (para a mãe), rapazola de talento, não entendia. Sua mãe, professora de canto, lhe dera a pior nota do seu curriculum e, provavelmente, esta tenha sido a melhor lição que poderia ter recebido. Afinal, passados tantos anos, é da pior nota que se lembrou primeiro.

Dizer isto também não é justo. É impossível não lembrar e recomendar o “xis-mignon bacon” (assim mesmo com x, abrasileiradamente escrito) do Ponto de Cinema ou do “xadrezão” do Pereira, lugares freqüentados por estudantes, professores, milicos, intelectuais, seminaristas e toda a sorte de pensadores e cabeças vazias de que se tem lembrança.

Acho que Kalsruhe não é mais tão alemã desde que ele chegou lá. Nem o Badisches Staatstheater, onde trabalha, é o mesmo. Nos corredores de uma das principais casas de ópera da Alemanha, com orçamento e temporada técnica e artisticamente superiores a outras mais tradicionais, o baixo circula com a desenvoltura de quem desempenha em padrões de excelência os principais papéis da sua tessitura.

Claro que com saudades do Brasil. Mais proximamente da cidade onde nasceu e ganhou aquela nota insuportavelmente baixa e comeu todos os sanduíches que tinha direito. Só não saboreou os da Lancheria Carlos Gomes, onde saem da chapa os hambúrgueres de Elidia e Fernando, na Rua Carlos Gomes, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.



O nome do menino, rapazola e hoje um dos grandes baixos brasileiros?

Ike para os amigos e Luiz Molz para todos que gostam da música bem cantada.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Dilemas Contemporâneos da Cultura (14)

Construção da Ópera de Sidney - Austrália
foto by Max Dupain

Não me lembro de um técnico ou artista que tenha elogiado o resultado final de um teatro projetado por Oscar Niemeyer. Aliás, de um modo geral, não há quem não reclame da maneira como os teatros são construídos no Brasil.

É voz corrente que se privilegia a construção de um novo equipamento sem que haja uma preocupação com equipá-lo adequadamente. De fato, a maioria dos teatros realizados pelo poder público são "concluídos" sem que lhes seja dada a condição adequada para ocupação e as desculpas são as mais variadas. Basta saber, por exemplo, que o teatro é construido sem o desenvolvimento de um plano de negócios, ou um plano de ocupação.

Como se dá o processo de construção?

O governante quer um teatro seja por que razão for. O primeiro passo é contratar um projeto - preferencialmente sem licitação por notória especialização e garantir os recursos gerais para a obra.

Aí estão os primeiros entraves. Não interessa discutir proposta de ocupação, necessidades artísticas, porque na cabeça da maioria dos gestores está se fazendo uma obra e não um espetáculo. "Obra é obra": projeto, cimento, visibilidade e inauguração com um show. Não interessa do quê, nem como.

Voltarei ao tema.


segunda-feira, 29 de março de 2010

Dilemas contemporâneos da Cultura (7)

Representation at the Theatre des Varietés
Jean Béraud

Bens Culturais são todas as formas de expressão da identidade de um povo e de sua humanidade.

Esta é uma definição para se repetir sempre. Milhares de vezes, rabiscando o que é forma, o que é expressão, identidade e por aí vai. Aliás, um exercício tentador.

A diferença entre arte erudita e arte popular reside no grau de alfabetização necessário para compreendê-las.

As artes populares trabalham com o universo conhecido, com a repetição, enquanto que as artes eruditas se orientam pela provocação de níveis alternativos e complementares de leitura e de abstração. Quanto mais uma determinada arte dita popular acrescentar de códigos de leitura, mais se aproxima da erudição.

Quando se fala em promover o acesso à Cultura Erudita comete-se um erro de origem: um cidadão não alfabetizado numa determinada linguagem não se aproximará dela. Considerando que o acesso existe uma vez que artes eruditas estão "expostas" nos seus lugares, a palavra "acesso" ganha o conteúdo de proximidade, facilidade de transito ou coisa parecida. Melhor seria usar como terminologia promover a iniciação à Cultura Erudita entendendo que isto significa promover o direito à alfabetização em determinada linguagem.

Ao insistimos na necessidade de formar pessoas e ensinar a pessoas o que música, pintura, ópera, dança, amplia-se o exercício dos seus direitos, inclusive de escolha.

Neste sentido, as instituições de comunicação de massa são cruéis, pois não avançam no direito ao conhecimento amplo e isto é cerceamento do direito.

Ora, se o cidadão não adquire outros níveis de leitura, ele jamais entenderá a importância de perpetuar as suas raízes culturais, um ciclo vicioso de difícil ruptura, já que não perceberá claramente sua realidade, seu papel social, terá uma visão limitada e corrompida na medida em que tenderá a desejar apenas o que o atende diretamente.

Convenhamos que seria uma lástima para o pais que deseja instituições sólidas, com valores sociais, políticos e econômicos que dêem sustentabilidade ao nosso futuro.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Carlos Gomes no mapa do Brasil (6)

Carlos Gomes

Próximo ao Hospital São Lucas, na cidade de Diadema em São Paulo, na Rua São Jorge, 160, fica o Estopim da Fiel, sede de torcida organizada do Corinthians, onde os torcedores, entre outras coisas, podem compar os ingressos do próximo jogo do "Timão".
E o melhor de tudo isto é que não muito longe dali fica a Rua Carlos Gomes: uma ruazinha pequena, mas que não deixa de ser o registro da homenagem ao compositor.
O que pouca gente sabe, entretanto, está na nota que me enviou o Maurício Chiavatta, de São Paulo.
Segundo consta na história do time de futebol, 13 pessoas sacramentaram a fundação do Sport Corinthians Paulista. Entre elas Miguel Bataglia, um alfaiate de renome à época e o primeiro presidente. Lá no bairro do Bom Retiro, ainda à luz de lampião de gás, o grupo discutiu meia dúzia de nomes para o novo time que surgia. Entre as idéias, passaram por Santos Dumonte , vejam só: Carlos Gomes e até Guarani (o título da ópera mais famosa de Gomes).
Por sugestão de José Ambrósio (um dos 13 fundadores) decidiu-se homenagear o famoso time inglês Corinthian Football Club que excursionava no Brasil. Assim mesmo. Corinthian sem "s". Como a torcida e a imprensa chamavam a equipe de "Corinthian's Team"...
De qualquer modo, por pouco um dos times de futebol mais populares do Brasil não se chamou Carlos Gomes.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Carlos Gomes no mapa do Brasil (3)

Igreja Matriz de Sant'ana
Carlos Gomes - Rio Grande do Sul - Brasil


Os Babinski, Stodulski, Osowski, Stawinski, Grzybowski, Wosinski, Sztormowski e várias outras familias polonesas foram as primeiras a ocuparem uma região de pouco mais de 80 km2, por volta de 1907, no Noroeste do Rio Grande do Sul.

Os primeiros desbravadores dedicaram-se à agricultura. Era natural que o nome da primeira comunidade fosse Sede dos Polacos. Depois Rio do Peixe, Ribeirão do Torto, Nova Polônia. Passa à categoria de Vila como um dos distritos de Erechim e, finalmente, ao se emancipar em 1944, a nova cidade passa a se chamar Carlos Gomes, uma homenagem ao compositor e uma referência à banda de música de mesmo nome, uma das marcas de qualidade e paixão da comunidade.

Se você quiser saber mais, visite o site oficial da cidade http://www.carlosgomes.rs.cnm.org.br/ enquanto não marca um passeio ao Rio Grande do Sul.

A cidade de Carlos Gomes me foi apresentada pelo Maurício Chiavatta em contribuição para o blog.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Dilemas contemporâneos da Cultura (1)

foto por Sérgio Righini

Não é de hoje a preocupação de como promover a produção cultural de forma sustentável e isto ganha contornos de urgência como se as necessidades atropelassem os fatos, tornando inevitável o ajuste dos processos de gestão. É hora da eficiência e eficácia.

No passado recente chegou-se à chamada Lei Rouanet com um tripé fazendo todo o sentido se a prática tivesse favorecido sua implantação. O sistema híbrido com o Estado desenvolvendo políticas com o Fundo Nacional de Cultura, o mecenato atrelado à renúncia fiscal e o empreendedorismo ativado por mecanismos acionários, parecia ser a solução mais adequada, não se deixando de lado os empréstimos bancários a juros subsidiados e variações. As questões econômicas do período inicial impediram que o sistema avançasse desta maneira e ainda hoje não temos uma solução satisfatória colocada em prática.

O dilema permanece portanto. Como produzir Cultura atuando em equilibrio com as demandas políticas do Estado e da Sociedade, modificando o caráter tutelar e ao mesmo ampliando os níveis de inclusão para a Cultura e na Cultura? Qual será o modelo adequado, consideradas as experiências nacionais e as práticas internacionais?

Não há dúvida que os Fundos Nacionais são necessários para estimular repostas às demandas do processo de formação e da franquia de direitos. É também certa a necessidade de uma participação maior das empresas e a compreensão do caráter estratégico de se produzir cultura de qualidade uma vez que isto se reverte para o próprio mercado na medida em que favorece o desenvolvimento humano, aperfeiçoa os sistemas de consumo. Nesta mesma linha, é importante a ação cinérgica do Estado com a concessão de incentivos escalonados, tendo em vista a própria rede produtiva da Cultura, a participação das atividades criativas no PIB, entre outros aspectos. Finalmente, as fontes regulares de financiamento e o desenvolvimento de canais consistentes e alternativos de obtenção de recursos (supressão ou garantias alternativas nos empréstimos, seguros, modelos compensatórios de negócios etc.).
Resta ainda uma questão operacional complexa, consideradas as dimensões e peculiaridades do território nacional, as desigualdades entre os Estados (de carater econômico, de infraestrutura instalada, de recursos humanos e mesmo da compreensão da amplitude do problema) e os perfis multiplos entre os Municipios.
De um lado a própria Sociedade exige maior participação, transparência pública, reformas e melhorias dos sistemas de políticas Educacionais, Sociais, Ambientais e de Cultura e de outro a Produção Cultural reivindica justo reconhecimento face aos crescentes entendimento e constatação de sua dimensão econômica.

Estas demandas são específicas e afetarão em maior ou menor teor a condução das políticas públicas a partir dos municipios, sendo necessários mecanismos urgentes de adequação sob o risco de não se construir as bases sólidas que o país e o bom senso exigem.

Na maneira como os Municipios se prepararão e se articularão com os Estados está a o selo estratégico de bons resultados futuros. Cabe aos Estados desenvolver programas que universalizem e estimulem o Desenvolvimento Cultural sendo a força motriz e integradora dos Municipios no processo. Estes por sua vez, precisam fazer a lição de casa.

Voltarei ao tema.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Boas novas para música e para a ópera.

Moça com Bandolim - Pablo Picasso - 1910



Só podemos receber com muitos bons olhos (e ouvidos) a boa notícia que nos dá o Sr. Ministro da Cultura Juca Ferreira no jornal O Estado de São Paulo de hoje (sob o título Fundo para o setor chega em Janeiro). Segundo o Ministro da Cultura, iniciativa antecipa as reformas da Lei Rouanet.


Segundo a matéria, "os investimentos na área da música irão cobrir toda a cadeia produtiva, desde a produção de festivais até a downloads remunerados de fonogramas... O ministro afirmou que a área da música tem que passar por várias revisões... Hoje representa 5% do PIB e 6% da mão de obra formal".


O anúncio foi feito na Feira Música Brasil, na cidade do Recife. em que foi anunciado a criação do Fundo Setorial de Música.


Ao propor - e colocar em prática a partir de janeiro como prometido - mudanças estruturantes para a área da música atuando diretamente no setor produtivo, dá-se um passo importante e fundamental para que políticas públicas possam ser sistematizadas e, finalmente, se consolidem as perspectivas para o segmento.


Particularmente na área da música erudita e da ópera, estamos engatinhando no Brasil. Muito precisa ser feito e o caminho parece se definir de forma mais sólida a partir daqui, tendo políticas como norteamento. Independente das necessidades gerais de produção de espetáculos, se pensarmos nas perspectivas possíveis para gravações, edições de partituras, comissionamentos para novas obras, ampliação do leque de festivais do gênero, podem surgir mecanismos que promoverão de fato significativas mudanças para o setor.