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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Nota de Rodapé (12)



Relutando muito, decidi romper o silencio autoimposto para o merecido descanso do blog. Afinal, a saída do maestro da Cia como dito no seu blog em 4/01/2011 é um fato relevante para o gênero e tendo comentado neste blog o seu início (13/11/2009), é natural que o faça neste instante de encerramento.


Antes porém, um novo e longo habeas corpus preventivo: não me proponho a ser crítico de ópera (não mais lembrarei isto no blog); não sou xenófobo (acredito e defendo a arte sem fronteiras, o aprendizado com quem sabe etc.); não tenho inveja (ou qualquer coisa parecida) do projeto, bastando reler as razões porque discordei de alguns aspectos da sua implantação; sempre mantive uma relação pessoal de recíproca cordialidade com o maestro; e, finalmente, desnecessário afirmar em outras circunstâncias, defendo a ópera como gênero e como atividade de formação de plateias, de formação e aperfeiçoamento de artistas e técnicos.

Acho lamentável que qualquer iniciativa cultural deixe de dar certo.

Produzir ópera num modelo de circulação nacional é uma tarefa complexa, possível dentro de alguns parâmetros de produção e solucionável desde que sejam tomados certos cuidados artísticos e técnicos.

Li e reli várias vezes o post do maestro sobre sua saída. As entrelinhas não batem, quase tanto quanto não batiam as informações quando do lançamento em novembro de 2009. 


Como seria possível a estreia de um espetáculo poucos meses depois do lançamento com um projeto baseado numa cenografia eletrônica de animação com duração de mais de duas horas? Como conciliar tantos intérpretes (eram vários regentes nacionais que se transformaram em estrangeiros durante a execução do projeto)? Como conciliar agenda dos teatros, muitas vezes utilizados para várias outras atividades? 


Como colocar no mesmo planejamento, uma produção estanque baseada em cenário virtual (projeção de vídeo) e teatros de tamanhos tão desiguais, com estruturas físicas tão díspares? Como trabalhar com uma equipe contendo basicamente estrangeiros na criação, com cenógrafo distante da nossa realidade, sem conhecimento prévio dos nossos teatros, das suas perspectivas de plateia? Que direção sobreviveria engessando o cantor a trabalhar em função da animação? De que maneira conseguir uma iluminação de qualidade considerando equipamentos disponíveis no país e as diferentes condições dos teatros e o inevitável conflito de fontes de luz em contraponto? 


Como transformar a tal solução de “efeitos cênicos de grande comicidade e teatralidade inalcançáveis em encenações convencionais“ como foi dito no lançamento, de balela fantasiosa e previsível em algo que não fosse uma direção sofrível, engessando os bons cantores, de resultado sonolento, desigual, irregular? Como produzir tudo isto sem experiência anterior na produção de espetáculos, na circulação, numa tarefa de tão grande porte? 


De que forma administrar tudo isto, incluindo comunicação, transporte de pessoas e coisas, hospedagem, alimentação, e o volume de recursos envolvido, aparentemente adequado para tal iniciativa, dentro das normas contábeis normalmente aceitas, nas regras do sistema de convênios, ou da própria Lei Rouanet? 


A curiosidade de aprender com as soluções não resistia ao bom senso. Tudo indicava que estas e outras questões primárias não estavam respondidas na origem e que o projeto, sem isto, estaria condenado a ter inúmeros problemas artísticos, com riscos de extrapolar em custos etc. Acontecido o caos, não adiantaria atribuir a culpa às circunstâncias comerciais ou a alguns dos agentes das perguntas acima, mas à falta de planejamento adequado, à estratégia adotada e mesmo aos dirigentes da iniciativa.

A ópera é um grande ensemble que depende de uma relação dinâmica entre regente, orquestra, cantores, coro, cenotécnica, iluminação já que tudo isto se relaciona ao vivo, com variações de interpretação a cada dia. Esta é a mágica da ópera: a cada dia nova percepção da música, do texto teatral. Já o cinema, a grosso modo, são imagens com uma dinâmica própria, mas fixas no tempo, com uma trilha fixa. Sem entrar na tecnicidade dos timecodes, dos playlists de correção, coisas óbvias para quem é do ramo, o partido adotado não é solução viável para integração entre desenho animado e grupos artísticos diferentes atuando ao mesmo tempo. Conheço pelo menos três soluções bem sucedidas, convergindo as duas linguagens, todas mantendo o espetáculo, a dinâmica da ação sob controle. 


Fiquei intrigado quando do lançamento e incomodado com o resultado, porque, naturalmente, considerando o meu envolvimento com a ópera, torci pelo projeto. Justiça seja feita à qualidade artística dos cantores e da orquestra formada por músicos atuantes em vários outros conjuntos. 


O projeto seguiu em frente, com mudança da cidade de lançamento, adiamento, e certamente, como depreendido do texto do maestro, com todo o tipo de erros decorrentes da incapacidade de se resolverem coisas insolúveis como aquelas indagações iniciais.

Espero que prevaleça a sensibilidade e racionalidade e que os problemas da Cia não venham a prejudicar a difícil tarefa de se obter recursos para a produção de ópera no Brasil onde, graças à diversidade estrutural, a convivência de modelos híbridos de produção (privada e estatal) é imprescindível.

A ideia de se fazer uma companhia de ópera (várias) no Brasil não é nova. Já participei de algumas discussões sobre isto algumas vezes e, com recuos e avanços, tenho a certeza de que há estratégias possíveis para que isto aconteça. Neste momento mesmo, existem ações em curso. Um ano e meio antes da Cia apresentei projeto de circulação a várias entidades, incluindo, por razões óbvias da popularidade, o Barbeiro de Sevilha (veja a marquinha), com proposta artística e técnica radicalmente diferente do modelo colocado em prática (pela cia) e discutimos com várias pessoas o caminho para se viabilizar o projeto. Não se avançou naquele momento e, claro, outros títulos deverão ser pensados para o futuro.

Tudo isto com uma estratégia criativa adequada à realidade brasileira, tão difícil de ser compreendida, mas muito estudada, com características e necessidades mapeadas e identificadas.

Saber que ao tempo certas questões estruturais serão resolvidas se mantivermos a coerência, a discussão e o diálogo multidisciplinar, de certo modo compensa os incômodos que persistem em aparecer quando se lê nas entrelinhas da “carta de despedida do maestro”. Registre-se que lamento não ver entre os “agradecidos” pelo menos um nome de um artista nacional, de um regente que seja, o que me parece, converge com os desvios de rota do projeto. Temos no Brasil artistas e técnicos de grande qualidade e vários regentes com maturidade e experiência em ópera, sendo perfeitamente possível agregar esforços para projetos desta natureza, o que certamente contribui para manter melhor controle de custos, redução de despesas etc.

Também não concordo com a redução do povo a “compradores de geladeiras”.

O processo é este mesmo. Depois da geladeira, do celular, será o perfume. E qual é o problema? Com recursos, cabe ao indivíduo o direito de escolha do que deseja adquirir. Não se impõe Cultura goela abaixo, e isto não significa que o direito de acesso não deva ser franqueado. Pelo contrário, é papel do Estado a franquia de direitos sociais e políticos. 


Trocando em miúdos, é papel estimular e promover a alfabetização para as artes, desenvolver programas de formação, estabelecer parcerias com iniciativas sérias, sólidas, comprometidas com estes objetivos sociais. Numa sociedade com problemas estruturais tão graves nas áreas da educação, da saúde, de meio ambiente, na cultura não é diferente. Temos que correr contra o tempo, fazer reformas em todos os níveis, lutar arduamente para reduzir diferenças, superar a fase das geladeiras e promover o desenvolvimento individual em benefício do coletivo. Trabalhar nas bases, falar, ensinar, exibir, propor, franquear acesso, demonstrar as convergências possíveis entre as artes, favorecer o direito de escolha.

Não podemos duvidar disto, nem podemos nos afastar disto. Podemos discutir, acrescentar, dialogar. Mas sem duvidar, nem ficarmos à distância. A “cultura das elites” só é vista assim onde se errou e se erra ao não favorecer, ampliar ou estimular o acesso, seja através da linguagem ou ações mais simples como, por exemplo, de ingressos gratuitos quando possível e em proporcionalidade ao dinheiro público envolvido.

A ópera – a Cultura Erudita – é um bem precioso demais para ficar ao sabor das veleidades individuais, devendo ser tratada como um bem coletivo, de ratificação dos princípios elementares dos direitos do cidadão.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Dilemas Contemporâneos da Cultura (48)





Em 23 de Dezembro de 2002 escrevi o artigo abaixo. Lá se vão oito anos.
Não mexi uma vírgula do texto original e, como num jogo dos sete erros, proponho que o texto seja lido, revisto e o que de fato mudou e esteja em funcionamento seja apontado como tal. 


Cultura, essa pedra no sapato.
Ao contrário do que se apregoa ser este um país dotado de imensa vocação cultural, é com reticências de bastidor que se avaliam os cenários da atividade para os próximos anos. Tanto é assim que o pouco que se sabe do futuro são idéias generalistas a menos de 10 dias para posse de novos governos. Patinha feia, órfã indesejada, prima pobre de organismos de maior orçamento, sabe-se que a Cultura tem pouco dinheiro no chamado orçamentário da União, Estados e Municípios.
Os orçamentos somente são pequenos por equívoco de posicionamento e falta de visão de conjunto da realidade da própria cultura. É fácil para um governante alegar faltas de verbas pelas urgências sociais como se fosse um instrumento dissociado da política de desenvolvimento. É comum questionar-se salário de músicos se comparados à necessidade de remédios. Para que editar livro, se precisamos de merenda? Porque dar bolsa para um artista plástico, se precisamos de uniforme? Para que desapropriar um prédio importante do patrimônio, se o assentamento na reforma agrária é mais urgente? 
Nesta linha e com desculpas inomináveis são engavetados projetos de fomento, investimentos urgentes e fundamentais para a mudança de patamar da Cultura encarada como atividade supérflua por pura ignorância. Tão triste quanto isto é a ausência de um projeto político claramente discutido.
Ainda que existam bases para discussão e prática, está distante o entendimento de que Cultura é via prioritária de desenvolvimento o que significa ser encarada como atividade de caráter estratégico para gerar empregos, ampliar receitas para o Estado, ampliar a consciência de cidadania, auxiliar a afirmação da identidade, inserir a produção cultural no mercado global e ampliar a visão de mundo da população. A Cultura gera empregos diretos (artistas, produtores, técnicos) e indiretos (transporte, alimentação, serviços, comércio, trade turístico); amplia receitas com os pagamentos de impostos relativos, com a entrada de divisas (circulação no próprio país e exportação para o exterior) gerando renda; é parâmetro de identidade e reconhecimento da participação na coletividade, no sentimento de união patriótica, na valorização dos bens individuais e coletivos.
A inserção da produção no mercado global favorece o reconhecimento das características culturais e receptivas do país (estados e municípios por extensão) para turismo de captação, ao mesmo tempo em que amplia os horizontes e possibilidades da população por via referencial.
Estas já seriam razões suficientes para repensar os volumes de recursos disponíveis para o setor. Entretanto temos avançado pouco até por conta de uma visão limitada da origem e aplicação destes mesmos recursos já que não há uma integração da Cultura no complexo de prioridades do Estado que a enxerga como uma maneira de “agradar artistas”. Afora a manutenção das atividades meio (administração) é fundamental dotar a gestão da Cultura de recursos que permitam sustentar as atividades-fim. Estas devem contemplar obrigatoriamente a ocupação dos equipamentos destinados à cultura, ao fomento de atividades nos vários segmentos (teatro, ópera, dança, música, artes plásticas, artes integradas, arte popular, humanidades, artes audiovisuais) criando-se mecanismos de aperfeiçoamento profissional e formação através de bolsas, programas de intercâmbio, política de restauro, manutenção de patrimônio histórico entre outros. 
A Cultura não pode ser tratada como um corpo estranho e isolado do conjunto de outras atividades do Governo em quaisquer dos níveis da Federação, nem dissociada da participação do Congresso e Senado na busca de soluções objetivas. Apenas para simplificar e no que parece mais óbvio, deve atuar de forma integrada, por exemplo, aos organismos de Educação e Turismo para que no mínimo aqui os benefícios visíveis estejam correlacionados. Para obter sucesso, o Estado deve realizar todos os esforços para viabilizar recursos de fontes patrocinadoras para a produção cultural tais como empresas privadas, entidades internacionais, programas de financiamento entre outros. Da mesma maneira, implementar a participação coletiva no processo. Nos programas de incentivo, por exemplo na lei federal, nos limites negociados com a Receita, poder-se-ia criar um mecanismo que permitisse à pessoa física destinar um percentual do seu imposto a pagar para determinado segmento da cultura de sua escolha. Estes valores constituiriam um fundo de fomento (ou acrescidos ao próprio FNC-Fundo Nacional de Cultura) no orçamento da Secretaria responsável pela área escolhida pelos contribuintes. Da mesma maneira, as empresas que não têm volume de imposto a pagar suficientes para patrocinar projetos, não têm vocação ou acesso para utilizar este mecanismo não poderiam também destinar parte do seu imposto para áreas de sua simpatia? Não seria este um mecanismo democrático e de formação de cidadania num segmento de importância estratégica? Não seria este um dos parâmetros para que se definam em que segmentos carentes de recursos, interesse mercadológico ou de visibilidade junto à população o Governo deveria investir? Ainda falando da lei federal, não seria mais democrático se empresas que detém seus institutos próprios fossem obrigadas a investir parte dos recursos incentivados nos programas públicos e na produção privada atuando fora de suas instalações? Não seria mais lógico deixar que a palavra patrocínio fosse usada apenas quando se tratam de recursos não incentivados, retornando ao mercado o diferencial tão importante para as empresas realmente patrocinadoras?
Mas deve ficar a Cultura apenas limitada a esta lógica? Obviamente não. Muitos produtos culturais podem ser realizados sob critérios de administração que permitam seu financiamento, retorno para investidores privados, sob incentivos para exportação e, nestes casos, deve o Governo apoiar o desenvolvimento de bancos de negócios, formação de agentes, programas apoiados por política de turismo, entre outros mecanismos. Outro aspecto importante é o fomento à criação e produção, aqui incluindo a formação de mão de obra técnica e artística. Nesta direção, a política de patrimônio e sua ocupação sustentada podem ser um alicerce importante para o surgimento de novos núcleos produtores nas artes e, nesta matéria, cabe ao Estado buscar e apoiar a busca de recursos para que as manifestações culturais inclusive étnicas possam ser abrigadas e sustentáveis. Se no âmbito da gestão dos Estados e Municípios ainda não se informatizaram bilheterias, não se criou regularidade de produção e de programação anunciada antecipadamente, não se modernizaram os conceitos de gestão, não se estabeleceram parcerias com produtores privados, não se ampliaram os programas de assinaturas, de participação coletiva em grupos de mecenato, são estes os pontos de partida urgentes.
 Em termos objetivos isto basta? Também não. A circulação de produtos culturais e acesso aos bens de raiz precisam ser democratizados e para isto devem ser utilizados todos os recursos tecnológicos disponíveis. As ações culturais devem ter desdobramentos, disponibilizadas regularmente através dos meios de comunicação; devem ser estabelecidos critérios para a circulação de teatro, ópera, dança; criar e manter orquestras em associação com entidades, associações, núcleos; privilegiadas as artes em produção nos Estados e municípios, sendo estimuladas as artes potenciais a partir de núcleos primários existentes ou da sua difusão através de exposições, reproduções, uso de tecnologia; as artes plásticas devem ser apoiadas com a ampliação e criação de pólos regionais de circulação e salas receptivas; a arte popular deve incentivada ao cooperativismo e associação a estruturas de turismo na comercialização regional e difusão externa; são urgentes os mecanismos para distribuição do cinema nacional, inclusive estimulando a criação de cineclubes (privados, cooperados ou até no âmbito dos próprios equipamentos do estado); estabelecer mecanismos para que oficinas culturais tenham atividade regular nas áreas do conhecimento e de forma a que estes núcleos de fato formem mão de obra; o pensamento deve ser difundido sob todas as formas possíveis (palestras transmitidas por satélite, edição de livros, seminários etc) em convênio com universidades, entidades sociais etc.; a preservação do patrimônio deve receber todo o estímulo do estado, sem paternalismos quando patrimônio privado, com rigor quando patrimônio do próprio estado, tendo como principal orientação a ocupação destes espaços, mantidas suas características e vocações originais ou adaptando-as a ocupações correlatas, de forma a preservar a memória geopolítica, histórica e artística; promover a circulação de bens priorizando facilidades para escolas, educadores e idosos; estabelecer política de circulação para o exterior estabelecida  em conjunto com a política de turismo.
A circulação de bens deve ser um mecanismo consciente em todas as esferas e as políticas públicas neste segmento têm que ser prioridade em todas as áreas do poder econômico, sejam associadas aos programas de exportação de produtos industriais e manufaturados, sejam aos programas de turismo, programas de tecnologia e outros.
A presença do Estado é inevitável e é na prática associativa com a produção cultural e na sinergia destas forças decorrentes que quaisquer mobilizações farão sentido para o futuro. A difusão do conhecimento deve ser encarada como rotina e o Estado deve fazer todos os esforços para que a população entenda que ele está a serviço da Cultura e não o inverso que é risco de cairmos no populismo demagógico. A partir daqui é necessário que se enxergue a Cultura e o direito ao acesso à informação cultural como necessidade elementar. A cultura, no extremo, deve ser entendida como indústria limpa que depende do potencial criativo do homem e para tanto deve ser desenvolvida e incentivada. Para isto precisa ser tratada com planejamento, decisão, objetivos e metas. Caso contrário, será por mais tempo uma pedra indesejada no sapato.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Dilemas Contemporâneos da Cultura (47)

A bola de Cristal (com a caveira) - 1902
John William Waterhouse

Nestes próximos dias serão definidos quais serão os Secretários de Cultura dos Estados e o Ministro da Cultura. Como conseqüência disto, todos aqueles que trabalham em escala nacional ou mesmo apenas nos Estados renovarão suas esperanças de colocar em prática os seus projetos.
Este é provavelmente o mais complexo Dilema Contemporâneo da Cultura porque não há nenhuma garantia de continuidade dos programas até aqui implantados ou mesmo perspectivas concretas de melhoria no cenário da produção cultural. Em resumo, não há garantia de que haverá investimento concreto na produção cultural favorecendo o desenvolvimento de idéias em programas de formação e de difusão da artes. Somente o tempo nos dirá.
Pode parecer vago, mas enquanto nada acontece, vamos nos dedicar a este 47 º Dilema. Isto mesmo, são 47 textos propondo discussões na Cultura. 
Nada mais concreto que a ausência de qualquer certeza e quando caímos no reino da especulação, nada melhor do que uma olhada nos oráculos. Pelo menos ali podemos encontrar respostas ou nos divertirmos um pouco.
Vejamos: 4+7= 11. Muito bem. Os dois 1 somados dão 2. Portanto, temos um par de 1 e um número 2 neste simbólico Dilema.
Pitágoras foi um pensador importante por configurar a matemática para os séculos seguintes a ele. Segundo Nicômaco, os números devem ser estudados à luz da Aritmologia (estudo metafísico, filosófico dos números) e da Aritmética que trata do estudos científicos e abstratos, absorvendo inclusive uma técnica (Cálculo) que permite avançar na concretude dos números. Confuso? Nem tanto. A coisa pode ficar mais complicada se associarmos o 2, por exemplo, ao conflito original da dualidade. O 2 é eco, reflexo, conflito, contraposição e Imobilidade momentânea que se produz quando as forças opostas são iguais. Atribui-se a Moderato de Cádiz, matemático espanhol, esta certeza velada: “O 1 a idéia de identidade, de unidade, de acordo e simpatia no Mundo; o 2 a idéia do ‘outro’, a discriminação e a desigualdade.” 
Se ficarmos nesta linha, podemos dizer que com o 2 (do 47), estamos "lascados". Mas, como todo oráculo tem seu lado "A" e o seu "B" (observe que os oráculos são regidos pelo 2), temos que pensar nos aspectos negativos e positivos do número
Os aspectos negativos do nº 2 são a dúvida, submissão, passividade, dependência e insegurança. Em se tratando de Cultura, isto é péssimo.
Já os positivos nos dão certo alento: tato, diplomacia, paciência, cooperação e companheirismo. Melhorou muito e este é o 2 que queremos...
Os números mestres (aqueles que vêm aos pares) nos dão outras informações. Vejamos o 11.
Seus aspectos negativos são a desonestidade, fanatismo, mesquinhez, desorientação e preguiça. Os positivos intuição, simpatia, paciência, perfeccionismo, humanitarismo, espiritualidade e percepção.
Na bíblia o 2 é o par perfeito. Dos animais puros, Noé levará para a arca sempre pares (Gn 7,2).  E perfeição é o que precisamos.
De um modo ou de outro, fica a dica: vamos ficar de olho, porque tudo pode ser o que quisermos que seja. 
Dois dedos cruzados, um galhinho de arruda atrás da orelha e um vazinho de espada de São Jorge podem ajudar.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Nota de Rodapé (11)



Acaba de ser aprovado o Plano Nacional de Cultura pelo Congresso. O Plano será agora encaminhado para sanção presidencial e, a partir daí , colocado em prática.

Vale acompanhar a regulamentação e as várias possibilidades que se apresentam nesta nova fase que certamente ainda irá provocar discussões, principalmente no que se refere à aplicação das novas regras da Lei Rouanet.

A expectativa da produção cultural é a maneira concreta como será utilizado o Fundo Nacional de Cultura e o acesso aos recursos disponibilizados, inclusive os critérios de utilização dos recursos  da PEC 150 que prevê a fixação mínima de orçamento da Cultura nos governos Federal, Estaduais e Municipais na ordem de 2,5%, 1,5% e 1% respectivamente.

É um passo importante por trazer uma perspectiva de avanço na atividade cultural, principalmente nas artes eruditas que tiveram atenção em menor escala nos últimos anos.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Dilemas Contemporâneos da Cultura (22)

Nebulosa Rosetta
foto NASA

No post de ontem propus uma indagação a respeito do Trabalho Artístico como um alargamento da finalidade intrínseca da natureza humana e a gestão de Cultura sendo uma questão estrutural de responsabilidade sobre a vida.
Sem os excessos de provocação a que estas afirmações poderiam conduzir, neste contexto o gestor de Cultura é o principal agente modificador do status do cidadão na medida em que favorece a fruição do Trabalho Artístico em todas as esferas.
Dirão os céticos que não é viável propor expectro tão amplo como linha de abordagem na gestão cultural exatamente pela natureza plural da atividade artística.
Claro que não podemos discordar disto. Sejamos razoáveis.
Mas, mesmo na razoabilidade, propor todas as esferas possíveis é diferente de afirmar ser inviável propor todas as esferas.
Conhecida a natureza do Trabalho Artístico e reconhecido pelo gestor, será a estrutura instalada e as expectativas de conjunto que conduzirão nesta perspectiva.
Isto não significa transferência de responsabilidades. Continua sendo do gestor o encargo de facilitador do acesso aos bens culturais e precisa ser avaliado por isto.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Dilemas Contemporâneos da Cultura (21)

A criação de Adão - Capela Sistina
Michelangelo Buonarroti - 1511

Tomando como ponto de partida a fundamentação expressa na Encíclica de João Paulo II sobre o Trabalho Humano (Laborem Exercens) "o trabalho constitui uma dimensão fundamental da existência do homem sobre a terra".
A relação entre homem e trabalho se dá como atividade essencial e própria da natureza humana, na medida em que entendermos ser o trabalho uma ação premeditada, planejada, modificadora do meio ambiente, do próprio homem e a favor dele. Como dirão os leitores da Bíblia, está em Genesis 1,28 a determinação "enchei a terra e submetei-a", sendo esta submissão a tal relação modificadora.
O que difere o homem dos animais é a sua perspectiva de opção criativa para realização do seu trabalho.
Cheguei ao mote.
A criatividade é portanto uma questão essencial para o entendimento do trabalho. Os físicos que me perdoem, mas o trabalho aqui admitido é diferente do T (o tau grego) e nada tem a ver diretamente com força e deslocamento.
A dimensão deste "trabalho" é a da essência humana, o que o torna típico do homem e apenas dele.
Ampliamos ainda mais o conceito se nos referirmos ao Trabalho Criativo e, por extensão, ao Trabalho Artístico.
Podemos concluir que o Trabalho Artístico é o alargamento da finalidade intrínseca da natureza humana o que torna a gestão de Cultura uma questão estrutural de responsabilidade sobre a vida.

Voltarei ao tema.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Carlos Gomes no mapa do Brasil (15)

Luiz Molz - Banquo - Macbeth
foto: Paulo Lacerda

- Mas, Mãe... Oito e meio?
O menino (para a mãe), rapazola de talento, não entendia. Sua mãe, professora de canto, lhe dera a pior nota do seu curriculum e, provavelmente, esta tenha sido a melhor lição que poderia ter recebido. Afinal, passados tantos anos, é da pior nota que se lembrou primeiro.

Dizer isto também não é justo. É impossível não lembrar e recomendar o “xis-mignon bacon” (assim mesmo com x, abrasileiradamente escrito) do Ponto de Cinema ou do “xadrezão” do Pereira, lugares freqüentados por estudantes, professores, milicos, intelectuais, seminaristas e toda a sorte de pensadores e cabeças vazias de que se tem lembrança.

Acho que Kalsruhe não é mais tão alemã desde que ele chegou lá. Nem o Badisches Staatstheater, onde trabalha, é o mesmo. Nos corredores de uma das principais casas de ópera da Alemanha, com orçamento e temporada técnica e artisticamente superiores a outras mais tradicionais, o baixo circula com a desenvoltura de quem desempenha em padrões de excelência os principais papéis da sua tessitura.

Claro que com saudades do Brasil. Mais proximamente da cidade onde nasceu e ganhou aquela nota insuportavelmente baixa e comeu todos os sanduíches que tinha direito. Só não saboreou os da Lancheria Carlos Gomes, onde saem da chapa os hambúrgueres de Elidia e Fernando, na Rua Carlos Gomes, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.



O nome do menino, rapazola e hoje um dos grandes baixos brasileiros?

Ike para os amigos e Luiz Molz para todos que gostam da música bem cantada.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Carlos Gomes no mapa do Brasil (6)

Carlos Gomes

Próximo ao Hospital São Lucas, na cidade de Diadema em São Paulo, na Rua São Jorge, 160, fica o Estopim da Fiel, sede de torcida organizada do Corinthians, onde os torcedores, entre outras coisas, podem compar os ingressos do próximo jogo do "Timão".
E o melhor de tudo isto é que não muito longe dali fica a Rua Carlos Gomes: uma ruazinha pequena, mas que não deixa de ser o registro da homenagem ao compositor.
O que pouca gente sabe, entretanto, está na nota que me enviou o Maurício Chiavatta, de São Paulo.
Segundo consta na história do time de futebol, 13 pessoas sacramentaram a fundação do Sport Corinthians Paulista. Entre elas Miguel Bataglia, um alfaiate de renome à época e o primeiro presidente. Lá no bairro do Bom Retiro, ainda à luz de lampião de gás, o grupo discutiu meia dúzia de nomes para o novo time que surgia. Entre as idéias, passaram por Santos Dumonte , vejam só: Carlos Gomes e até Guarani (o título da ópera mais famosa de Gomes).
Por sugestão de José Ambrósio (um dos 13 fundadores) decidiu-se homenagear o famoso time inglês Corinthian Football Club que excursionava no Brasil. Assim mesmo. Corinthian sem "s". Como a torcida e a imprensa chamavam a equipe de "Corinthian's Team"...
De qualquer modo, por pouco um dos times de futebol mais populares do Brasil não se chamou Carlos Gomes.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Carlos Gomes no mapa do Brasil (3)

Igreja Matriz de Sant'ana
Carlos Gomes - Rio Grande do Sul - Brasil


Os Babinski, Stodulski, Osowski, Stawinski, Grzybowski, Wosinski, Sztormowski e várias outras familias polonesas foram as primeiras a ocuparem uma região de pouco mais de 80 km2, por volta de 1907, no Noroeste do Rio Grande do Sul.

Os primeiros desbravadores dedicaram-se à agricultura. Era natural que o nome da primeira comunidade fosse Sede dos Polacos. Depois Rio do Peixe, Ribeirão do Torto, Nova Polônia. Passa à categoria de Vila como um dos distritos de Erechim e, finalmente, ao se emancipar em 1944, a nova cidade passa a se chamar Carlos Gomes, uma homenagem ao compositor e uma referência à banda de música de mesmo nome, uma das marcas de qualidade e paixão da comunidade.

Se você quiser saber mais, visite o site oficial da cidade http://www.carlosgomes.rs.cnm.org.br/ enquanto não marca um passeio ao Rio Grande do Sul.

A cidade de Carlos Gomes me foi apresentada pelo Maurício Chiavatta em contribuição para o blog.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Dilemas contemporâneos da Cultura (1)

foto por Sérgio Righini

Não é de hoje a preocupação de como promover a produção cultural de forma sustentável e isto ganha contornos de urgência como se as necessidades atropelassem os fatos, tornando inevitável o ajuste dos processos de gestão. É hora da eficiência e eficácia.

No passado recente chegou-se à chamada Lei Rouanet com um tripé fazendo todo o sentido se a prática tivesse favorecido sua implantação. O sistema híbrido com o Estado desenvolvendo políticas com o Fundo Nacional de Cultura, o mecenato atrelado à renúncia fiscal e o empreendedorismo ativado por mecanismos acionários, parecia ser a solução mais adequada, não se deixando de lado os empréstimos bancários a juros subsidiados e variações. As questões econômicas do período inicial impediram que o sistema avançasse desta maneira e ainda hoje não temos uma solução satisfatória colocada em prática.

O dilema permanece portanto. Como produzir Cultura atuando em equilibrio com as demandas políticas do Estado e da Sociedade, modificando o caráter tutelar e ao mesmo ampliando os níveis de inclusão para a Cultura e na Cultura? Qual será o modelo adequado, consideradas as experiências nacionais e as práticas internacionais?

Não há dúvida que os Fundos Nacionais são necessários para estimular repostas às demandas do processo de formação e da franquia de direitos. É também certa a necessidade de uma participação maior das empresas e a compreensão do caráter estratégico de se produzir cultura de qualidade uma vez que isto se reverte para o próprio mercado na medida em que favorece o desenvolvimento humano, aperfeiçoa os sistemas de consumo. Nesta mesma linha, é importante a ação cinérgica do Estado com a concessão de incentivos escalonados, tendo em vista a própria rede produtiva da Cultura, a participação das atividades criativas no PIB, entre outros aspectos. Finalmente, as fontes regulares de financiamento e o desenvolvimento de canais consistentes e alternativos de obtenção de recursos (supressão ou garantias alternativas nos empréstimos, seguros, modelos compensatórios de negócios etc.).
Resta ainda uma questão operacional complexa, consideradas as dimensões e peculiaridades do território nacional, as desigualdades entre os Estados (de carater econômico, de infraestrutura instalada, de recursos humanos e mesmo da compreensão da amplitude do problema) e os perfis multiplos entre os Municipios.
De um lado a própria Sociedade exige maior participação, transparência pública, reformas e melhorias dos sistemas de políticas Educacionais, Sociais, Ambientais e de Cultura e de outro a Produção Cultural reivindica justo reconhecimento face aos crescentes entendimento e constatação de sua dimensão econômica.

Estas demandas são específicas e afetarão em maior ou menor teor a condução das políticas públicas a partir dos municipios, sendo necessários mecanismos urgentes de adequação sob o risco de não se construir as bases sólidas que o país e o bom senso exigem.

Na maneira como os Municipios se prepararão e se articularão com os Estados está a o selo estratégico de bons resultados futuros. Cabe aos Estados desenvolver programas que universalizem e estimulem o Desenvolvimento Cultural sendo a força motriz e integradora dos Municipios no processo. Estes por sua vez, precisam fazer a lição de casa.

Voltarei ao tema.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Tudo por um novo pacto civilizatório!

O artigo "Música no Brasil é prisioneira das canções" (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2310200927.htm ) do professor Vladimir Safatle, evidencia a grave condição por que passa a cultura erudita no Brasil.

Os bens culturais - formas de expressão da identidade de um povo e provas de sua humanidade - passaram a ser tratados no domínio das mercadorias e dos estoques, por políticas públicas relativizadas pelos projetos de poder, pela ausência de planejamento e de estratégias de formação.

A audição de uma peça de Reich, Penderecki, de Almeida Prado, ou uma visita a uma exposição numa Pinacoteca, tornaram-se entendidas como experiência de entretenimento, pois esta é a leitura rasa de cultura vigente.

A Cultura erudita deixou de ser um ativo das elites pela mesma lógica mercantil que dita os destinos da comunicação de massas, do acúmulo de bens, da velocidade de projeção pessoal e uma inversão do papeis das lideranças seja nas artes, no pensamento, na política etc. É lamentável que valha mais a forma que o conteúdo, a aceitação dos modelos prontos ao debate pela construção, a resenha à investigação e observação pessoal.

É necessário um novo pacto com urgência. Nós, geração que escreve, lê, pensa, decide, precisamos ter consciência imediata da obrigatoriedade de se pactuar um novo futuro. Perdemos muito nos últimos anos pela inércia com que a atividade cultural vem sendo tratada e isto precisa ser corrigido e se transformar numa espécie de agenda civilizatória.

A constatação de Gilberto Mendes de que "a música erudita de nosso tempo não existe para a classe culta brasileira" é reflexo deste distanciamento das elites intelectuais que têm o relevante papel de pensar, formular propostas e cobrar resultados de governos, entidades e de empresas.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Não há nada mais antigo...

... do que cowboy que dá 100 tiros de uma vez...

Minha geração nasceu da mídia - com a mídia de massa - embalada pelos 100 tiros do cowboy do Nelsinho Motta e Marcos Valle. De fato não assistia ao programa de televisão que tocava este tema de abertura, mas não há ninguém da minha idade que não se lembre da música e, claro, do tal cowboy atirador com seu cavalo invariavelmente branco, preto de crinas longas e brilhantes.

Não consigo tirar da cabeça a frase do Paul Valèry cunhada no final do século XIX: o problema do nosso tempo é que o futuro não é o que costumava ser.

Sem apelar para o saudosismo fora de hora, os olhares mais atentos percebem que alguma coisa mudou há pouquíssimo tempo e nós - antenados blogotas e adultos com macacos no sótão - não estamos mais claramente posicionados sobre os novos rumos.

Não é como costumava ser.

Tenho invocado todos os oráculos e, ao que parece, tudo sinaliza para uma nova realidade distante do que projetávamos nos anos 70.

Entre o comunista que comia criancinha e a mídia como máquina controlável como querem alguns hoje, há um processo perverso e nivelador em távola rasa que modificou as demandas populares para pior. Não dá para atribuir ao gosto do povo esta ou aquela escolha. Também não sejamos ingênuos ao imaginar que o povo é uma figura manipulável o tempo todo. Não se trata de um filme em que nós, os documentaristas, do alto da grua, olhamos longe e vemos "O Povo".

Não é isto. É uma questão mais complexa. Quem nunca comeu jiló e só ouviu dizer que é ruim e amargo, jamais provará a iguaria. Se não lhe foi oferecido regularmente, o prazer desta degustação jamais acontecerá. No seu túmulo estará escrito: Aqui jaz quem nunca comeu jiló. Foi infeliz e não sabia.

Está certo: dirão que é cultural. Não tratemos pois da cultura do jiló, nem da cultura de comer jiló. Mas da Cultura segundo os jilós. Homens e mulheres amargos como o fruto, mas saborosos e apreciáveis.

Ah, sim: para quem não sabe, jiló é fruta.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A solução no Petróleo? Ora, faça-me o favor...

Hoje noticia-se na Folha de São Paulo ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1109200915.htm) que o Ministério da Cultura conseguiu 1% do petróleo do pré-sal para a Cultura o que pode significar até 10 vezes mais o orçamento atual. Não há dúvida que deveríamos comemorar isto, não fosse lastimável o estado de abandono da música erudita e da ópera.

Não vou entrar no mérito de como andam estas áreas, porque teremos muito espaço aqui para isto. Apenas registro, como primeira nota neste primeiro blog, a sensação de vazio que tenho quando ouço falar de pré-sal. É provável que eu esteja enganado. Espero estar enganado. Mas não deixo de pensar que esta história é uma balela e uma inversão de valores. Quando todos sabemos que o que interessa para as pessoas e para o planeta é a busca de uma matriz energética limpa, verde ou nome que o valha, falar em petróleo, com investimento de alto risco e resultado idem, me parece uma posição tão frágil que sequer arriscaria qualquer palavra de elogio.

Há dois anos em Paris, andei num táxi movido a energia elétrica. Há dois anos. Confesso que não entendo porque não se investe este montão de dinheiro na pesquisa de novas fontes e se aplica desde já parte dos recursos existentes na produção cultural. Quando se fala no Brasil em desenvolvimento, crescimento, melhoria da economia, imediatamente investe-se na produção com subsídios, redução de impostos etc. Menos na produção cultural que tanto pode gerar recursos, empregos, desenvolvimento, conhecimento, saber.

Lamento constatar, mas o modelo que aí está não interessa ao Brasil. Não interessa aos Brasileiros. A Cultura é a nossa fonte de riqueza, é o que pode eliminar o que existe de miséria no país, é o que pode gerar recursos de curtíssimo prazo. Não é uma aventura, nem anda na contramão do que se espera de qualidade para o planeta.