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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Dilemas Contemporâneos da Cultura (61)


Conversava hoje com o administrador de um teatro numa das belas e interessantes cidades no interior do Estado de São Paulo. 


"Um dos problemas mais graves que temos - disse ele - é quando certas "estrelas" do teatro se apresentam aqui. Alguns entram no teatro e se portam como donos, impedem a circulação dos nossos profissionais, assumem o controle e não podemos fazer nada porque é um problema da pauta, é um nome importante".


Comentei com ele que esta é uma questão inadmissível e é uma questão de conceito. 


O teatro (os teatros) público está a serviço da comunidade na medida em que facilita o acesso à informação cultural. Ao mesmo tempo, está também a serviço dos artistas que o utilizam e para tal, precisa cumprir uma série de requisitos (instalações, limpeza, gestão etc.). 


Mas está a serviço e não servil a nenhuma das partes. Tanto a comunidade quanto os artistas têm o equipamento a seu dispor dentro de determinadas regras.


Cabe ao público comparecer, pagar ou não seus ingressos, utilizar adequadamente as instalações, obedecer às normas de segurança e preservação do espaço etc. Ao mesmo tempo, ao artista cumprir com suas obrigações contratuais, garantir a obediência as normas de segurança e regras de utilização etc. E ao teatro fazer com tanto um quanto o outro sejam satisfeitos nas suas demandas específicas, sempre levando em conta que a preservação deste bem público é condição de todo o processo. 


Não parece simples? Pois é. Precisa ser simples. 

(obs.: imagem www.omais.com)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Dilemas Contemporâneos da Cultura (16)

Ópera de Sidney
foto de Max Dupain

Tenho insistido na questão de construção de teatros e as necessidades de profissionais com visão de ocupação estarem envolvidos no projeto.

A razão é muito simples. Quando se trata de um teatro privado, é um problema do investidor o que faz com seu dinheiro. Mas, quando o teatro é público, o problema é de todos e cabe ao poder público preservar a melhor maneira de utilizar os recursos oriundos dos impostos. Cabe aos profissionais a vigilância para que tudo seja feito como necessário.

É preciso que ao se construir um teatro se tenha clara a necessidade de fazer a obra e ocupá-la adequadamente. A obra de um teatro se completa quando o teatro está "vestido" por dentro com todas as necessidades resolvidas: a roupa da caixa cênica (varas de luz funcionando, de cenografia, equipamentos de luz, de som, camarins em ordem etc.).

Isto parece muito óbvio? É óbvio. Mas não é o que acontece na prática na maioria das vezes.

O Prefeito manda fazer a obra e a patuléia aplaude. Passada a fase de projeto, obra, vem a inauguração. Como o teatro não está pronto e geralmente já é fim de governo, a desculpa é inaugurar como der e ocupar depois. A turma da Cultura corre, aluga tudo luz, som e demais coisas. O Prefeito e as autoridades fazem discurso, entregam o importante teatro, valorizam a Cultura, posam para a foto e pronto.

O elefante branco segue em frente, sem iluminação artística, sem som, com goteiras, com problemas na porta do camarim que não fecha, a descarga que não funciona, o vazamento da pia, continua assim por anos, sem registro formal do Diretor do Teatro que é emprestado de outra Secretaria, com o técnico (o faz-tudo do teatro) se dividindo entre vários equipamentos.

Quem já viu isto?

A pergunta é como faremos para mudar esta realidade? Como modificar esta cultura oportunista? Como construir mais equipamentos culturais, mas de forma adequada? Como usar os erros cometidos aqui e no exterior a nosso favor?

quarta-feira, 3 de março de 2010

Dilemas contemporâneos da Cultura (1)

foto por Sérgio Righini

Não é de hoje a preocupação de como promover a produção cultural de forma sustentável e isto ganha contornos de urgência como se as necessidades atropelassem os fatos, tornando inevitável o ajuste dos processos de gestão. É hora da eficiência e eficácia.

No passado recente chegou-se à chamada Lei Rouanet com um tripé fazendo todo o sentido se a prática tivesse favorecido sua implantação. O sistema híbrido com o Estado desenvolvendo políticas com o Fundo Nacional de Cultura, o mecenato atrelado à renúncia fiscal e o empreendedorismo ativado por mecanismos acionários, parecia ser a solução mais adequada, não se deixando de lado os empréstimos bancários a juros subsidiados e variações. As questões econômicas do período inicial impediram que o sistema avançasse desta maneira e ainda hoje não temos uma solução satisfatória colocada em prática.

O dilema permanece portanto. Como produzir Cultura atuando em equilibrio com as demandas políticas do Estado e da Sociedade, modificando o caráter tutelar e ao mesmo ampliando os níveis de inclusão para a Cultura e na Cultura? Qual será o modelo adequado, consideradas as experiências nacionais e as práticas internacionais?

Não há dúvida que os Fundos Nacionais são necessários para estimular repostas às demandas do processo de formação e da franquia de direitos. É também certa a necessidade de uma participação maior das empresas e a compreensão do caráter estratégico de se produzir cultura de qualidade uma vez que isto se reverte para o próprio mercado na medida em que favorece o desenvolvimento humano, aperfeiçoa os sistemas de consumo. Nesta mesma linha, é importante a ação cinérgica do Estado com a concessão de incentivos escalonados, tendo em vista a própria rede produtiva da Cultura, a participação das atividades criativas no PIB, entre outros aspectos. Finalmente, as fontes regulares de financiamento e o desenvolvimento de canais consistentes e alternativos de obtenção de recursos (supressão ou garantias alternativas nos empréstimos, seguros, modelos compensatórios de negócios etc.).
Resta ainda uma questão operacional complexa, consideradas as dimensões e peculiaridades do território nacional, as desigualdades entre os Estados (de carater econômico, de infraestrutura instalada, de recursos humanos e mesmo da compreensão da amplitude do problema) e os perfis multiplos entre os Municipios.
De um lado a própria Sociedade exige maior participação, transparência pública, reformas e melhorias dos sistemas de políticas Educacionais, Sociais, Ambientais e de Cultura e de outro a Produção Cultural reivindica justo reconhecimento face aos crescentes entendimento e constatação de sua dimensão econômica.

Estas demandas são específicas e afetarão em maior ou menor teor a condução das políticas públicas a partir dos municipios, sendo necessários mecanismos urgentes de adequação sob o risco de não se construir as bases sólidas que o país e o bom senso exigem.

Na maneira como os Municipios se prepararão e se articularão com os Estados está a o selo estratégico de bons resultados futuros. Cabe aos Estados desenvolver programas que universalizem e estimulem o Desenvolvimento Cultural sendo a força motriz e integradora dos Municipios no processo. Estes por sua vez, precisam fazer a lição de casa.

Voltarei ao tema.