segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Dilemas Contemporâneos da Cultura (36)

by cepê

Quais artistas no Brasil conseguem planejar com seis meses de antecedência o que concretamente irão colocar em prática nos próximos meses?

Podemos contar nos dedos de alguns poucos pares de mãos, imaginando que estamos fazendo a lista coletivamente.

As raizes dos problema estendem-se em várias direções a partir do próprio artista.

Aproveitando o mote das eleições e sabendo que não há tempo para colocar isto em pauta, o que podemos fazer para, a partir daqui, começar a exigir dos partidos - e Candidatos - maior clareza sobre o que pretendem fazer ou pensam na área da Cultura?

Ou há uma mobilização concreta ou dentro de muito pouco tempo estaremos nos perguntando: o que eu fazia enquanto nada acontecia?

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Viva a Ópera (3)

Orquestra Jovem se aperta em Campinas

Hoje fui brindado com um e-mail que me cobrou a ausência de qualquer menção à Comemoração da morte de Carlos Gomes em 16 de setembro de 1896.

Para os mais atentos, ontem excepcionalmente publiquei um "Carlos Gomes no Mapa do Brasil", uma maneira, sem apologias, de recordar o compositor.

Acho que publicar semanalmente (sempre que possível) uma referência a Gomes é uma forma de incluí-lo no cotidiano daqueles que se dão o trabalho de ler este blog.

Pois muito bem. Carlos Gomes morreu em 16 de Setembro. Faz-se muito pouco por sua memória no Brasil, muito embora esteja claro que Gomes é parte da nossa história, está mencionado em praticamente todas as cidades brasileiras que lhe dedicam ruas, praças, avenidas, vilas, sem contar a infinidade de nomes de restaurantes, bares, lojas de armarinhos, lanchonetes. Muitas vezes sequer se sabe na vizinhança quem é o homenageado ilustre, mas isto é difusão, educação que irá corrigir.

Em se falando em homenagem, por enquanto, o que se vê - não excluindo a boa intenção do grupo - é a Orquestra Jovem se apertando entre o monumento-túmulo em Campinas e uma feirinha popular, com meia dúzia de gatos pingados assistindo.

Já há maturidade suficiente no Brasil para se acabar de vez com a máxima "melhor isto do que nada", ou "para Campinas isto está bom".

Acho que dá para entender porque fui discreto ontem e - como diz o Sebastião Teixeira - estou me segurando hoje. A ópera para ser vivida, às vezes precisa de estômago.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Carlos Gomes no mapa do Brasil (23)

Soldados índios de Mogi das Cruzes
de Jean Baptiste Debret

Mogi das Cruzes possui mais de 370 mil habitantes e nasceu de um povoado - pouso de bandeirantes como Bras Cubas que dá nome a uma das Faculdades locais, onde dei aulas já faz muito tempo.

No largo do Carmo em Mogi das Cruzes, você está no Centro Histórico da cidade onde fica o Theatro Vazques onde ontem apresentamos Carmen - a ópera contada e cantada, espetáculo baseado na ópera homônima de Geoges Bizet. Teatro lotado e aplausos efusivos ao final. Muito bom. Dever cumprido.

Ali perto, no Mogi Moderno, como dizem na cidade, você encontra facilmente a Rua Carlos Gomes.

Não fotografei, nem fui à rua. Falha imperdoável. Por isto, postei hoje como mea culpa. Na quinta e não terça como de hábito.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Dilemas Contemporâneos da Cultura (35)


Se intolerância é uma atitude inadequada para quem se pretende equilibrado, conformismo é abominável.

Infelizmente, algumas coisas no atual cenário politico-eleitoral nos conduzem à mais tosca intolerância ou ao desprezível conformismo.

Não dá para ficar de bom humor com o que somos obrigados a ver e ouvir, tendo nossos olhos e ouvidos reduzidos a meros receptáculos passivos.

Continuamos sem obter respostas no dia-a-dia para as questões estruturais na área da música erudita e da ópera enquanto nas campanhas políticas nenhuma vez a palavra Cultura é mencionada, passando aos eleitores - à nação - o claro descaso e sistemático abandondo a que são submetidos os milhares de profissionais da área em todo o país, sem mencionar o descalabro de não se reconhecer a atividade cultural como uma questão de direito implicito nos mais elementares conceitos de Cidadania.

Por mais que se tenha clareza da importãncia das atividades criativas e do que representa a Economia da Cultura no Brasil, muito poucos foram os resultados concretos sobre as formas de financiamento da atividade cultural, seja no plano dos incentivos, do FNC ou mesmo empreendedorismo sustentado.

Urge corrigir isto. Há uma forte expectativa do setor para resultados e espera-se respostas concrtetas do Ministério ainda nesta gestão.

Entretanto, para o futuro, não temos concretamente como avaliar qual o melhor programa ou candidato a atender as necessidades da área. Certamente nos estados, cada um consegue ter uma visão de continuidade ou pelo menos uma referência do que será o futuro com esta ou aquela candidatura. Mas, não deixa de ser uma opinião pessoal. No plano federal, a angústia é crescente pela total ausência de sinalização do que pretendem os postulantes.

Mais uma vez, nos preparamos para, qualquer que seja o novo governo, iniciarmos o longo e desgastante debate sobre idéias e possibilidades. Pelo visto até aqui, não há futuro tangível para os próximos anos.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Viva a Ópera! (2)


Cláudia Riccitelli e Martin Muhle em Carmen (*)
espetáculo baseado na ópera homônima de G.Bizet

O ato de escrever o blog é intempestivo. Não há planejamento anterior ou pensamento organizado. Vem da necessidade autoimposta de escrever todo dia, estando ou não com ânimo para isto. É como uma tarefa profissional em que se tem a obrigação de realizar por causa de um compromisso assumido.

No caso, o compromisso é comigo mesmo e a cada dia com mais e mais pessoas que me escrevem nos contatos pessoais, nas redes de relacionamento de que participo ou aqui mesmo como comentário. Este compromisso se reafirma com os seguidores - voluntários - que se dispõem a registrar seus nicknames e a acompanhar o que aqui publico. 

É também um ato solitário na medida em que não se sabe se o que está sendo dito é do interesse de quem lê, ou ainda se satisfaz expectativas.

Esta reflexão leva ao contrário disto: a ÓPERA onde o trabalho é coletivo e seu resultado depende de uma série de fatores, alguns incontroláveis.

Vamos lá. A ópera é um espetáculo. O que parece óbvio, não é tanto assim quando vemos os absurdos que se cometem ao se imaginar que basta juntar um monte de cantores, meia duzia deles apaniguados dos apaniguados dos "gestores" e, como peças de tômbola, embaralhá-los todos num saco de feltro, imaginando que só isto, sem projeto, sem conceito, com direções frívolas, com musica descuidada, se consegue chegar a um resultado que justifique o investimento na maioria das vezes público.

Volto: a ópera é um espetáculo e precisa ser concebido tendo isto em vista. Não importa se com muitos ou poucos recursos financeiros, mas é um espetáculo, um show e tem que ser pensado para platéias que pagarão o ingresso e que voltarão novamente para outras propostas e concepções.

A escala da ópera é gigantesca se assim o desejarmos e na dimensão do que é possível realizar, considerada a casa onde será apresentada. Exemplificando, São Paulo e Rio de Janeiro têm nos seus Teatros Municipais a perspectiva planetária, ou seja, são casas de ópera que precisam funcionar em modelo semelhante a de seus pares internacionais. Para sermos modestos, São Paulo e Rio têm na Bastille, Chatelet, Liceu, Karlsruhe e Dusseldorf/Duisburg seu modelo a ser seguido. Devem no mínimo trabalhar nestas bases ou tê-las em mente. Claro que esta paridade deve ser construída, seja a partir de orçamentos coerentes com o porte e reconhecimento internacional destas cidades, seja com parâmetros artísticos que justifiquem o investimento. Isto serve para tudo, inclusive para casas de menor porte. O que não dá é convivermos com a farsa. É hora de colocarmos a mão nas consciências e passarmos a õlhar de forma madura para o que acontece no nosso segmento profissional.

A hora é esta, pois temos a oportunidade concreta de construir um novo caminho para as artes eruditas. Isto passa por eleições, por debates, mas sobretudo pela clara visão profissional do nosso setor.

(*) Esta foto reúne Cláudia e Martin de forma muito especial. Quanta qualidade, quanta arte, quanta satisfação do trabalho juntos. Ao fundo Mário e Priscila olham com ternura um dos mais lindos duetos que pudemos compartilhar.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Viva a Ópera!

Elenco de Carmen (*)
espetáculo baseado na ópera homônima de G. Bizet

Volto a escrever aqui após um mês. Quase um mês.
Neste retorno abro esta nova coluna e espero que o tema se consolide comemorando a ópera e como um convite a viver a ópera.

Vários leitores e blogueiros têm me perguntado (ou insinuado), porque não escrevo também sobre ópera.
De fato é uma questão complicada.

Sendo um profissional atuante, prefiro muitas vezes calar a falar. Não advogo para mim o papel de comentar o que está sendo feito aqui e ali. Falar mal ou bem não é um ato de coragem, pelo contrário é uma maneira muito simples de chamar atenção e esta vitrine não me interessa porque existem outras mais atraentes.

Sendo assim, usarei este espaço para comentar algumas coisas que tenho feito, a discussão sobre narrativas, modos de produção e correlacionados.

Simbólicamente, inauguro o espaço com a foto do elenco que se apresentou em CARMEN na semana passada, um espetáculo da série Ópera Contada e Cantada que criei há dois anos e cuja concepção assino com a Rosana Caramaschi. Este espetáculo baseado na ópera, está viajando pelo interior do Estado de São Paulo, com um enorme sucesso de público.

Encerramos nos próximos dias a primeira série de 24 apresentações/cidades, com algo em torno de 14.000 pessoas como platéia. O vigor com que o espetáculo é recebido demonstra que estamos no caminho certo, com parâmetros artísticos e de produção corretos e que o modelo encontrado possui uma relação de custos muito viável para os Estados e Cidades. E por estarmos todos (corpo técnico e artístico) em permanente estado de alerta e em contínua autocrítica para aperfeiçoamento do conjunto, estamos seguros de que os padrões de excelência perseguidos estão atingidos e são relevantes.


(*) da esquerda: Miguel Geraldi (D. José e Pablo), Gabriella Pace (Micaela, Frasquita e Juanita), Leonardo Pace (Lilas Pástia VI e Escamillo), Magda Painno (Carmen e Consuelo), Airton Renô (Miguelito).

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Dilemas Contemporâneos da Cultura (34)

O falso espelho - 1928
René Magritte

Fato: não há ídolos no canto lírico no Brasil

Não há cantores que arrebatem multidões, nomes que as pessoas queiram ouvir em casa e que lotem teatros. Infelizmente não temos isto no Brasil.

Tudo indica que o Brasil está mudando. Ontem mesmo conversa com uma jovem jornalista que disse “tenho a impressão que alguma coisa está diferente, pois ao que parece, as pessoas estão valorizando mais a música erudita, o canto”. Esta impressão pessoal, não é distante do que tenho ouvido em vários lugares.

Há um dado novo. Nos últimos 16 anos, o país sofreu profundas alterações, maior integração através da comunicação global, a telefonia celular influenciando largamente os comportamentos, a abordagem tecnológica e, como consequência disto, maior perspectiva de escolha de entretenimento associado à formação do individuo.

É natural que todo o investimento em Educação, amplie a capacidade de indagar dos novos cidadãos (é isto mesmo tá? Novos cidadãos como uma provocaçãozinha particular). Melhorando o conceito, quanto maior a franquia de direitos, maior a aproximação do individuo comum dos processos artísticos que lhe exigem maior alfabetização para a arte.

Assim, volto a insistir, é o momento dos nossos cantores – de resto todos os profissionais da área da Cultura – repensarem seus projetos.