quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
Ópera em Movimento (8)
Neste ano, completam-se 180 anos do nascimento de Antonio Carlos Gomes, na cidade de Campinas e 120 anos de sua morte em Belém.
Considerando a própria natureza deste blog é natural que tenhamos muito Carlos Gomes por aqui. Tentaremos.
Para quem não ouviu, aí está o link do programa Ópera em Movimento que apresentei na Radio Cultura de São Paulo, na série Idéias Musicais. Trata-se de uma edição específica sobre a ópera Maria Tudor, do compositor.
Espero que você goste. Afinal, você é o diretor ou a diretora convidada.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Dilemas Contemporâneos da Cultura (105)

O mundo continua precisando de poesia.
Em 2011, escrevi um texto para um site (que não mais existe) colocando em discussão e me colocando a favor de um projeto que envolvia a produção e publicação na internet de 365 vídeos (um para cada dia do ano) em que a cantora Brasileira Maria Bethânia interpretava poesias de vários autores e, de quebra, falava um pouco sobre a agressividade de determinadas opiniões.
Levei "pau" como se diz. Várias pessoas publicaram justificativas contundentes e opiniões tão absurdas e tão despreparadas que não me restou outra coisa a não ser pacientemente rir de tudo aquilo.
A questão na época e que prevalece até hoje é quanto ao direito de qualquer empresa pleitear recursos públicos para a realização de projetos na área da Cultura dentro das regras vigentes. Além disto, também remexo na maneira como muitas opiniões são oferecidas sem que se tenha uma base sólida de conteúdo para sua fundamentação.
Para resumir, o tempo passou. O Brasil não ganhou as poesias recitadas pela Bethânia gratuitamente. O Brasil perdeu, a poesia perdeu, a Língua Portuguesa perdeu, os leitores perderam, os jovens deixaram de ter uma referência concreta e permanente da poesia no Brasil.
Mas, felizmente há sempre um mas, Bethânia conseguiu editar um magnifico livro de poesias e um precioso dvd. Veja a edição da Editora UFMG e compre pelo menos dois exemplares do livro: um para você e outro para um amigo.
Para quem não leu em 2011 ou para quem quer recordar, não tendo encontrado o link do site original, segue o texto que publiquei na versão da época:
O mundo precisa de poesia
Convenhamos que
é uma ótima ideia “produzir e alimentar um blog
durante um ano, com publicação diária de vídeos inéditos; atrair
aproximadamente 6.000 (sic) visitantes diariamente; estimular a formação de
público de leitores; estimular a discussão, na rede, sobre poesia e literatura;
propiciar o contato e interação de jovens com literatura brasileira; estimular
artistas de diferentes áreas a produzir conteúdo baseado em poesias e textos;
produzir material audiovisual de grande qualidade técnica e artística; reunir
uma equipe altamente capacitada e experiente para realizar o projeto;
multiplicar resultados, estimulando o compartilhamento do conteúdo dos vídeos
em outras redes, como YouTube, Facebook, Twitter e Orkut”.
Originada dos calendários
destacáveis com frases e imagens diárias, a ideia de postar na internet vídeos
diários gratuitamente, com uma artista do quilate da cantora Maria Betânia e em
paralelo promover a discussão e a difusão da poesia sob todas as formas, é um
pequeno ovo de Colombo.
Aí está uma ideia que eu gostaria
de ter tido.
Junte-se a isto uma produtora
(Conspiração) de reconhecido e exemplar portfólio. Temos então um projeto
cultural na lei do audiovisual bem-sucedido?
Não. Antes falta o dinheiro que só virá
se os produtores conseguirem convencer alguma empresa a apoiar o projeto
repassando parte do seu imposto a pagar.
Bastou, no entanto, que se
divulgasse a aprovação do projeto pelo Ministério da Cultura e sin sala bin, num passe de mágica, tivéssemos
uma enorme e furiosa batalha na internet com acusações, insinuações,
discordâncias. Mágoa, muita gente magoada. Muita inveja. Um sofrimento de fazer
dó. Palavrões no twitter xingando a cantora, ministro da Cultura, ódio
represado.
É assustador. Tem alguma coisa muito errada
neste processo.
Desde quando a cultura no Brasil
não precisa de incentivos e apoio do Estado? Tente qualquer um ir a uma empresa
e oferecer um projeto cultural qualquer sem incentivo e veja se consegue.
Pode ser até que a Maria Betânia
e a Conspiração Filmes consigam convencer agências e empresas e patrocinarem o blog com verbas próprias. Ótimo. Seria
maravilhoso para a cultura e para a poesia.
E qual o problema do recurso ser incentivado?
Neste caso, deve ser incentivado porque basta olhar o que as empresas – o
mercado – têm feito pela poesia no Brasil. Perguntem aos poetas o quanto de
dinheiro conseguiram privadamente para viabilizar suas ideias nos últimos 20
anos.
Além das suposições de praxe das relações
entre a cantora irmã* e a ministro irmã*, insinuações de protecionismos, a
guerrilha também põe em xeque os valores apropriados no projeto, colocando no
rol das atividades criminosas ganhar-se dinheiro com o sucesso, com o resultado
de anos de trabalho.
Vamos a uma curta análise. Quanto
representa de trabalho pesquisar e definir 365 poesias, selecionar trechos,
estudar o autor, estilo, atmosfera proposta por poema, definir 365 diferentes
interpretações, estudar decorar e ensaiar algo em torno de 1.095 minutos de
texto (18 horas aproximadamente)? Quanto representa de trabalho
responsabilizar-se por tudo isto mantendo padrões de qualidade, acompanhando as
intermináveis horas de edição, de pós-produção? Quanto representa a associação
da imagem pessoal da artista ao projeto?
As perguntas acima referem-se
exclusivamente a questões de direção artística do projeto.
Pois bem. Várias pessoas
criticaram os valores atribuídos ao trabalho da intérprete e diretora. Houve
até quem dissesse que se fosse outro nome, o projeto não seria aprovado. Ou
ainda que o valor é muito alto e que a cantora não vale isto. A fila de
absurdos vai além, discutindo-se inclusive se os prazos de dedicação ao projeto
valem isto ou aquilo. As mesmas pessoas que aceitam com tranquilidade o valor
da marca de um refrigerante, ou de um tênis famoso, são incapazes de atribuir
valor à “marca” de um artista, ao seu valor simbólico e, por que não, o seu
valor comercial.
Observe como é complexa a
questão. Trata-se de discriminação ao contrário. Os críticos da iniciativa fazem
uma inversão doentia argumentando que é protecionismo, que o projeto não se
sustentaria com um nome desconhecido – este sim merecedor de apoio. Reprovam/condenam
o fato concreto da aprovação do projeto lastreado num nome conhecido de
inquestionáveis méritos artísticos, de ligação pessoal com a poesia e merecedor
de remuneração justa pelo valor que agrega ao projeto. Nesta maneira de pensar,
preferem deixar de lado o que é bom, responsável, reconhecido, meritório e valorizar
o que é duvidoso, desconhecido. Os críticos desta iniciativa esquecem que
também na cultura há um processo em curso. O que é novo deve ser incentivado na
medida do seu tamanho.
Há poucos dias recebi um
comentário discordando de um texto que publiquei onde ressaltava serem necessários
cursos de preparação de gestores que considerem os princípios gerais da
economia, da administração pública, acrescentando que, mesmo cumprida esta
etapa, precisaríamos dar tempo a estas pessoas adquirirem experiência/vivência
de gestão. Para alguns, basta um indivíduo fazer um curso e estar pronto para
ser gestor de um projeto, uma empresa, um órgão governamental. Parece que não
entra na cabeça das pessoas que maturidade artística, administrativa é
importante e que, sobretudo na atividade cultural, erudição se obtém pela
experimentação, repetição, aprendizado.
Talvez a velocidade com que as
coisas acontecem na nuvem levem a
estes julgamentos apressados. Talvez a falta de balizamento, a falta de quem
diga o que é certo ou errado, do que é bom ou ruim, leve alguns a dizerem o que
primeiro lhes passa pela cabeça. Devem também existir outros que, sem qualquer
pudor, criam ou aproveitam a onda para fazer prevalecerem seus próprios
interesses, mas isto é outra história.
O foco aqui é este fenômeno de
distorção de valores, do exagero na crítica, do excesso raivoso.
Situação semelhante acontece com
o tsunami envolvendo o jovem
cartunista João Montanaro, 14 anos, e sua charge publicada no dia 12/3 na Folha
de São Paulo.
Ao desenhar uma onda devastando
uma cidade japonesa, escolhendo como tema/modelo uma xilogravura de Katsushika
Hokusai criada entre 1830 e 1833, o cartunista foi alvo de elogios, mas de
críticas de leitores, sendo inclusive xingado por colegas na escola onde
estuda.
Como publicado na FSP de 17/3, o
pesquisador Gonçalo Júnior, autor do livro “A Guerra dos Gibis”, “vivemos na
era da chatice e do politicamente correto. É uma reação paranoica, o desenho
retrata as mesmas coisas que todos estes vídeos que estão no YouTube”.
Neste caso, o mais provável é que
os críticos não conseguiram atingir o nível de leitura proposto pelo desenho. Para
entender o que foi feito é necessário um mínimo de alfabetização para as artes
e a capacidade de perceber que o cartunista pegou um ícone da arte japonesa,
justamente uma gravura representando uma onda e acrescentou destroços. Por pura
ignorância, alguns furiosos não o condenaram por plágio. Definitivamente aquele
não era um trabalho de humor e esta foi a leitura rasa que levou à condenação
do autor.
Ou seja, este caso e o outro são
situações diferentes, mas a mesma matriz de falta de bom senso, de excessos
desnecessários.
O projeto cujo título é o mesmo
deste artigo, é bem-vindo. O mundo precisa mesmo de poesia.
Quando a argumentação é baseada
em berros, não há o que contra argumentar. Quando uma sociedade começa a
espernear aos chutes e pontapés é recomendável o recuo, sob o risco de todos
colocarem a mesma carapuça de burrice dos que fazem a crítica.
(*) a cantora é irmã de Caetano Veloso e a Ministro era Ana de Holanda, irmã de Chico Buarque, duas figuras polêmicas e hoje frequentemente associadas a questões de ordem política. Ressalto que este texto se refere fundamentalmente à perspectiva de que qualquer artista pode (e deve) ter o direito de se valer de recursos públicos para executar seu trabalho. Se há alguma falcatrua, má utilização de recursos existem instrumentos legais para verificar isto. Também ressalto que a análise em questão nada tem a ver com as posições políticas e pessoais dos citados e não estão em xeque as eventuais discordâncias nesta área entre eles e este autor.
sábado, 2 de janeiro de 2016
Diálogos Contemporâneos da Cultura (104)
Máscaras " A ópera em São Paulo hoje - por CP
(*) extrato de Hamlet, de William Shakespeare, em tradução de Bárbara Heliodora (in memoriam)
Reflexões sobre as consequências e as inconsistências do que
representa a acusação de desfalque de R$18 ou R$20 milhões do orçamento do
Theatro Municipal amplamente difundida pelos veículos de comunicação em
reportagens recentes. Qual a sua origem, seu significado e efeitos na percepção
pública da nossa categoria?
Parte VII
Cheguei ao fim (?) destas primeiras reflexões. Sem concessões. Hora de ler e reler. Eventualmente, acrescentar, modificar um ou outro detalhe. Mas em outro texto, porque estes precisam ficar como estão.
Em algum lugar deste blog já mencionei T.S. Eliot, George Steiner e Mario Vargas Llosa, autores de pensamentos críticos acerca da Cultura. De Steiner, tomo emprestado que "não é uma jogada retórica insistir que estamos em um ponto no qual os modelos da cultura e dos acontecimentos anteriores são de pouca ajuda... No máximo podemos tentar por em evidência certas perplexidades". A observação de Steiner sobre o título do seu próprio ensaio também serve para o meu propósito nestas considerações: mesmo a frase "reflexões sobre as consequências e as inconsistências do que representa..." é ambiciosa demais e talvez haja apenas esperança neste pequeno exercício.
Em algum lugar deste blog já mencionei T.S. Eliot, George Steiner e Mario Vargas Llosa, autores de pensamentos críticos acerca da Cultura. De Steiner, tomo emprestado que "não é uma jogada retórica insistir que estamos em um ponto no qual os modelos da cultura e dos acontecimentos anteriores são de pouca ajuda... No máximo podemos tentar por em evidência certas perplexidades". A observação de Steiner sobre o título do seu próprio ensaio também serve para o meu propósito nestas considerações: mesmo a frase "reflexões sobre as consequências e as inconsistências do que representa..." é ambiciosa demais e talvez haja apenas esperança neste pequeno exercício.
Infelizmente, esta vulnerabilidade a que se expos o Theatro
Municipal não é responsabilidade nem prática esperada dos profissionais de
ópera e teatro no Brasil. Pelo contrário, tenho orgulho de pertencer a um grupo
de profissionais que é sério, responsável, preocupado com o bom uso dos
recursos públicos, que possui uma visão apaixonada sobre sua atividade, mas uma
visão pautada no compromisso com o público, com a difusão, com a formação.
Sem pieguices, estou entristecido, com esta história toda. Uma melancolia impotente ao perceber a evidência de certos fantasmas perenes e intoleráveis. Triste.
É da natureza do ser artístico certo distanciamento
para melhor observação da realidade. Se tomamos partido aqui ou ali,
essencialmente queremos à nossa maneira ser críticos de nós mesmos e mostrar
isto para quem nos vê.
Alguns de nós temos a dimensão exata de que não há dinheiro
que pague a cultura que não tenha como origem aqueles que nos assistem. A
origem dos nossos recursos é o próprio ingresso ou os impostos que direta ou
indiretamente financiam a atividade cultural. É a este grupo que pertenço: aos
artífices da cultura e aos que também modestamente pagam a cultura.
Por isto tudo, não posso, não podemos, aceitar passivamente
fatos como estes que se repetem, repetem, repetem em maior ou menor escala e que se agravam com o passar do tempo. Estamos vivendo um momento novo. Hora em que precisamos mudar o verbo de "ouvimos falar" para "sabemos que".
Para o bem da Cidade, do público, da manutenção da
confiabilidade no que fazemos, precisamos obter respostas rápidas dos organismos que se debruçam sobre o tema. Mas também temos que dar respostas rápidas.
Não podemos carregar sob nossos nomes o estigma de sermos
criadores de um gênero caro, impagável, irresponsável com os números, quando
sabemos que existem no Brasil todas as condições técnicas e criativas para se
desenvolver a ópera de maneira saudável financeiramente e de se criar em níveis
de excelência, com custos menores, inclusive com artistas estrangeiros compondo
equilibradamente parte do elenco.
Não tenho escrúpulos ao dizer que não aceito ser avaliado por
patrocinadores, por gestores, muito menos pelo público, sob esta régua. Por esta razão, tomo como certo o famoso verso de Hamlet que ilustra este post.
Precisamos, sob o risco de não termos o que escrever sobre nossa própria história recente, urgente reavaliação do que consideramos correto, adequado e desejável para nossas vidas e caminhos profissionais.
Nós, até aqui, definitivamente, não fizemos o melhor que sabemos fazer. Basta olharmos os programas dos teatros de ópera e observarmos os nomes que estão fora deste circuito redutor e perverso criado, em que comemoramos três quando já fizemos quinze. Quantos bons regentes, quantos bons cantores, quantos bons diretores, quantos bons cenógrafos, quantos bons figurinistas, quantos bons iluminadores, quantos bons gestores, quantos bons estão em suspensão numa bolha cataclísmica?
Se todos não percebermos que a lógica em curso não interessa à nossa atividade e não agirmos rápido para convencer aqueles que nos financiam que estamos na contra-estratégia do desenvolvimento cultural, estaremos prestando um desserviço às nossas mais óbvias expectativas.
Precisamos, sob o risco de não termos o que escrever sobre nossa própria história recente, urgente reavaliação do que consideramos correto, adequado e desejável para nossas vidas e caminhos profissionais.
Nós, até aqui, definitivamente, não fizemos o melhor que sabemos fazer. Basta olharmos os programas dos teatros de ópera e observarmos os nomes que estão fora deste circuito redutor e perverso criado, em que comemoramos três quando já fizemos quinze. Quantos bons regentes, quantos bons cantores, quantos bons diretores, quantos bons cenógrafos, quantos bons figurinistas, quantos bons iluminadores, quantos bons gestores, quantos bons estão em suspensão numa bolha cataclísmica?
Se todos não percebermos que a lógica em curso não interessa à nossa atividade e não agirmos rápido para convencer aqueles que nos financiam que estamos na contra-estratégia do desenvolvimento cultural, estaremos prestando um desserviço às nossas mais óbvias expectativas.
Diálogos Contemporâneos da Cultura (103)
Máscara "A ópera em São Paulo hoje" por CP
(*) fragmentos de Hamlet, de William Shakespeare em tradução de Bárbara Heliodora (in memoriam)
Reflexões sobre as consequências e as inconsistências do que
representa a acusação de desfalque de R$18 ou R$20 milhões do orçamento do
Theatro Municipal amplamente difundida pelos veículos de comunicação em
reportagens recentes. Qual a sua origem, seu significado e efeitos na percepção
pública da nossa categoria?
Parte VI
A gestão anterior (2009-2012) da Secretaria de Municipal de Cultura criou as bases para a Fundação do Theatro
Municipal, de fato sendo implantada com todas as dificuldades naturais nesta
nova administração municipal a partir de 2013.
Infelizmente, no entanto,
mesmo que isto não tenha sido de conhecimento do grande público do Theatro, a
gestão foi assaltada por notícias indesejáveis em várias direções:
cancelamentos de produções previamente acertadas; demissões em vários escalões e contratações de estrangeiros em diversos níveis de atuação e posteriores
problemas internos que levaram a demissões destas mesmas pessoas; substituição
de equipes inteiras do teatro nas áreas técnicas; tentativa de acabar com o
Coral Paulistano o que levou a uma exposição absolutamente desnecessária do TMSP
e seus grupos artísticos; extrema lentidão na regularização dos contratos de
grupos artísticos fixos; atrasos de pagamento de artistas estrangeiros em prazos nada
razoáveis para um organismo deste porte; demissões e recontratações de
demitidos; manifestos públicos de artistas estrangeiros quanto a práticas
artísticas e de relacionamento na direção da casa, com ameaças de processos judiciais; manifesto de músicos da
orquestra contra práticas de relacionamento da direção da casa, entre outras
questões.
Ou seja, não houve – pode-se dizer – uma gestão pautada no
equilíbrio e serenidade. Pelo contrário, as más noticias relativas aos
processos administrativos e artísticos sempre foram tônica constante. Até mesmo
questionáveis supostos padrões de qualidade, relativizados por elevados custos
de contratação e de produção.
Não faltaram, portanto, sinais públicos para que a Prefeitura implantasse mecanismos de controle sobre os contratos com terceiros e
sistemas de pagamento e de gestão.
Se é a OS quem paga, se o Diretor Artístico e equipe define
quem contratar e por quanto, como não podem estar todos estes arrolados nos
mesmo pacote de suspeitos, quando, como noticiado, segundo a Promotoria, “existem provas do esquema fraudulento envolvendo a
contratação de artistas, que teria movimentado cerca de R$ 20 milhões”?
É esperado que Controladoria Geral do Município e o
Ministério Público Estadual, dois órgãos de sabida competência, apurem e deem
publicidade aos resultados obtidos, identificando os níveis de envolvimento
interno nos dois organismos, quais os produtores externos envolvidos e até onde
se estendem estas praticas.
Num espectro mais largo, espera-se que se investiguem as
relações contratuais com agentes estrangeiros, como se deram e em que valores;
pela intangibilidade, como foram as contratações de serviços especificamente
nas áreas de cenografia, de figurinos, as locações de equipamentos; como estão sendo tratados os acervos de ópera, as produções em parceria ou doadas por teatros
estrangeiros, as locações de produções; a maneira como foram obtidas receitas
de bilheteria, vendas de programas, assinaturas, doações, locações para
eventos, seus mecanismos de controle e o destino dado a estes valores,
certamente expressivos, já que a própria administração sempre anunciou estarem
todas as apresentações lotadas; como se deram as captações de patrocínio face a
legislação vigente e, também nestes casos, como foram remunerados artistas,
técnicos, serviços, se houve duplicidade de pagamento de contratos comparados
aos orçamentos e projetos realizados.
Infelizmente, tudo isto é necessário para que não fiquem dúvidas sobre quaisquer pessoas que tenham trabalhado nesta atividade no TMSP e se dê um basta a qualquer especulação a respeito.
Infelizmente, tudo isto é necessário para que não fiquem dúvidas sobre quaisquer pessoas que tenham trabalhado nesta atividade no TMSP e se dê um basta a qualquer especulação a respeito.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
Diálogos Contemporâneos da Cultura (102)
Máscaras " A ópera em São Paulo hoje" - por CP
(*) extrato de Macbeth, de William Shakespeare, em tradução de Barbara Heliodora (in memoriam)
Reflexões sobre as consequências e as inconsistências do que
representa a acusação de desfalque de R$18 ou R$20 milhões do orçamento do
Theatro Municipal amplamente difundida pelos veículos de comunicação em
reportagens recentes. Qual a sua origem, seu significado e efeitos na percepção
pública da nossa categoria?
Parte V
Quanto mais a gente pensa... Vejamos tudo isto sob outro prisma.
Vinculada estatutariamente à Secretaria Municipal de Cultura,
a Fundação do Theatro Municipal é uma fundação de direito público administradora
de bens de sua propriedade e de recursos públicos, criada para realizar
políticas públicas para a Cidade de São Paulo.
Foi um grande desafio para a Cultura em São Paulo a criação da Fundação na gestão do Secretário Carlos Augusto Calil, uma solução muito esperada e que se pretendia regularizasse o funcionamento do teatro, com a efetivação dos corpos artísticos, além de melhoria considerável nos processos de contratação, inclusive dando transparência aos procedimentos. Houve certa reticencia quanto ao modelo de fundação ideal, de direito público ou privado, mas uma concordância geral com o ganho considerável a favor da ópera em qualquer dos casos. De fato, acho que a de direito público, como acabou acontecendo, seria um pouquinho mais complicada, porém longe de ser impeditiva de se fazer um bom trabalho no teatro. Haveria um degrau a mais de intermediação, mas absolutamente administrável e, conduzido o processo com seriedade e transparência, poderia ser muito saudável. O Calil conseguiu dar um passo fundamental para o futuro do teatro e isto é inegável.
Criada a Fundação, coube ao governo seguinte a estruturação e dar prosseguimento ao processo de implantação.
A Fundação constituída, possui como equipamentos o Theatro Municipal de São Paulo e a Praça das Artes, os corpos artísticos da Sinfônica Municipal, o Coro Lírico, o Quarteto (de Cordas) da Cidade, o Balé da Cidade, a Orquestra Experimental de Repertório e o Coral Paulistano Mário de Andrade. A estes se acrescentem programas, a Escola de Música e a Escola de Dança. Não podemos esquecer da Central Técnica que, teoricamente, deveria construir e armazenar cenários e figurinos das produções do conjunto, uma atividade dificílima e um delicado nó para o desejo de se fazer um teatro de repertório.
Foi um grande desafio para a Cultura em São Paulo a criação da Fundação na gestão do Secretário Carlos Augusto Calil, uma solução muito esperada e que se pretendia regularizasse o funcionamento do teatro, com a efetivação dos corpos artísticos, além de melhoria considerável nos processos de contratação, inclusive dando transparência aos procedimentos. Houve certa reticencia quanto ao modelo de fundação ideal, de direito público ou privado, mas uma concordância geral com o ganho considerável a favor da ópera em qualquer dos casos. De fato, acho que a de direito público, como acabou acontecendo, seria um pouquinho mais complicada, porém longe de ser impeditiva de se fazer um bom trabalho no teatro. Haveria um degrau a mais de intermediação, mas absolutamente administrável e, conduzido o processo com seriedade e transparência, poderia ser muito saudável. O Calil conseguiu dar um passo fundamental para o futuro do teatro e isto é inegável.
Criada a Fundação, coube ao governo seguinte a estruturação e dar prosseguimento ao processo de implantação.
A Fundação constituída, possui como equipamentos o Theatro Municipal de São Paulo e a Praça das Artes, os corpos artísticos da Sinfônica Municipal, o Coro Lírico, o Quarteto (de Cordas) da Cidade, o Balé da Cidade, a Orquestra Experimental de Repertório e o Coral Paulistano Mário de Andrade. A estes se acrescentem programas, a Escola de Música e a Escola de Dança. Não podemos esquecer da Central Técnica que, teoricamente, deveria construir e armazenar cenários e figurinos das produções do conjunto, uma atividade dificílima e um delicado nó para o desejo de se fazer um teatro de repertório.
A Fundação põe em prática as politicas públicas de Cultura
nesta área com repasses de valores do orçamento municipal a ela destinados, para
uma Organização Social (OS) com quem mantem contrato de gestão aditáveis (conforme necessidades, aumentos de orçamento) para que de fato esta se tornasse a
responsável pelo pagamento de salários dos grupos artísticos, do diretor
artístico do teatro, custos de produção dos espetáculos, de programas específicos gerados pelos grupos artísticos, de serviços referentes à
estrutura dos equipamentos (prevenção de incêndio, limpeza, conservação e
outras).
A OS tem uma relação de subordinação contratual com a Fundação a quem deve prestar contas. Mas, no espírito das próprias organizações sociais, ela possui relativa autonomia para cumprir suas metas previstas em contrato e obter recursos adicionais de patrocínios etc.
É na OS onde são feitos os orçamentos e contratações definidos pela Direção Artística e onde são mantidas as relações nacionais e internacionais com artistas, técnicos, cenógrafos, figurinistas, agentes, produtores etc.
A OS tem uma relação de subordinação contratual com a Fundação a quem deve prestar contas. Mas, no espírito das próprias organizações sociais, ela possui relativa autonomia para cumprir suas metas previstas em contrato e obter recursos adicionais de patrocínios etc.
É na OS onde são feitos os orçamentos e contratações definidos pela Direção Artística e onde são mantidas as relações nacionais e internacionais com artistas, técnicos, cenógrafos, figurinistas, agentes, produtores etc.
Pelo contrato de gestão, a Organização Social é permissionária do uso e responsável pela administração e gestão do Theatro Municipal e da Praça das Artes, bens cuja propriedade é da Fundação Theatro Municipal de São Paulo. Uma tarefa nada simples como se vê.
Não devemos fazer julgamentos apressados, nem condenar
pessoas sem que lhes seja dado o direito de defesa. Históricos pessoais também precisam ser levados
em conta. Mas não é esquisito que nada tenha sido dito, de imediato, sobre a tal Organização
Social nestas informações que até agora vieram a público? Como os processos de
governança não conseguiram detectar os tais ilícitos anunciados?
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
Diálogos Contemporâneos da Cultura (101)
Máscara "A ópera em São Paulo hoje"- por CP
Reflexões sobre as consequências e as inconsistências do que
representa a acusação de desfalque de R$18 ou R$20 milhões do orçamento do
Theatro Municipal amplamente difundida pelos veículos de comunicação em
reportagens recentes. Qual a sua origem, seu significado e efeitos na percepção
pública da nossa categoria?
Parte IV
Não quero passar dos limites, por que o exagero pode parecer
desrespeitoso, maledicência, pode ser traduzido por inveja ou corruptelas de
caráter que não me dizem respeito.
Mas, não passando dos limites, fica difícil acreditar que a ópera La Bohème, a ser reposta pelo teatro, venha a custar um milhão,
novecentos e oitenta reais, como divulgado pelos veículos de comunicação, mesmo com
moedas estrangeiras nas alturas. Por que, se o cenário* já construído, restringe-se a um quadrado de uns 4m x 4m ou 16 m², constituído de
algumas peças de mobiliário, com um bonde cenográfico fixo em um dos atos, e
alguns elementos de cena e, portanto, com reduzido custo de reparos, se necessários? Com cenários prontos, com luz possível de ser
feita com os equipamentos que o teatro possui, com uma sonorização mínima,
com sistema de legendas já pago, sem qualquer dificuldade na caracterização,
com figurinos já executados, com eventualmente um ou outro ajuste realizado internamente, sem custo adicional de orquestra e de coro, sem necessidade de contratação com elenco nacional de excelente padrão, perfeitamente contratável, por que um valor tão elevado?
Mesmo que justifiquem este orçamento, não é sadio para a atividade, não é
criativo, não é inteligente, não é aceitável à luz das próprias dificuldades
por que o teatro alegadamente passa.
Um amigo, contador, com quem conversei, ponderou que “como contabilista, não tenho
por que, nem como julgar o interesse artístico, a qualidade – palavrinha abstrata
– de um trabalho deste, mas como deve ter pensado o Controlador do
Município, somando todos os números que se fala aqui e ali, a conta não bate.
Alguém tem que explicar isto”.
Vamos ao ponto. Voltemos ao contrassenso com que comecei esta
série de reflexões.
Não é um absurdo, um total contrassenso, um abuso da nossa
capacidade de discernimento, que a Prefeitura venha a público dizer que só
acionou a Controladoria Municipal depois que o Diretor Artístico do teatro, um
empregado de altíssimo escalão, magnificamente remunerado para não criar nem levar problemas, comentou com o prefeito que havia algum problema na gestão? Soma-se
a isto a Prefeitura afirmar ter agido, somente após o pedido de demissão de
outro diretor quando este alegadamente disse ter saído por “divergências pessoais, interferências
exteriores ou o embate entre visões distintas”?
Algo não bate, como diria meu amigo contador.
(*) Quando vi o espetáculo, levei um susto quando a cortinas se abriram. Levei um cutucão "mediúnico" com a cenografia incrivelmente parecida com a que desenhei em 2010 para a produção de La Bohème na nossa Companhia itinerante. Por incrível que pareça, a mesma utilização do espaço delimitado por um quadrado, em medidas incrivelmente parecidas, com o mobiliário teatral utilizando os mesmos elementos que criei para nossa montagem. No nosso caso, um quadrado delimitador do espaço "não teatro" como desejei para o espetáculo. Sem pretender ser crítico, gosto mais da nossa encenação que, embora seja um texto "curto", possui uma dinâmica mais ao espírito da juventude com que vejo os personagens. Gosto também da maneira como os objetos de cena se transformam em outros numa dinâmica muito particular da nossa Companhia. Não sei quem criou o cenário da Bohème do Municipal e esta é uma demonstração de como uma boa ideia quando está no ar, pode ser utilizada por dois artistas que não se conhecem, mas que têm convergências criativas.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
Diálogos Contemporâneos da Cultura (100)
Máscara "A ópera em São Paulo hoje"- por CP
Reflexões sobre as consequências e as inconsistências do que
representa a acusação de desfalque de R$18 ou R$20 milhões do orçamento do
Theatro Municipal amplamente difundida pelos veículos de comunicação em
reportagens recentes. Qual a sua origem, seu significado e efeitos na percepção
pública da nossa categoria? *
Parte III
As atuais denúncias públicas de desvios de dinheiro feitas
pela Controladoria Geral do
Município e do Ministério Público Estadual são muito ruins para o Theatro
Municipal de São Paulo (TMSP). Como se trata de uma atividade realizada
coletivamente, não dá para imaginar que os supostos desvios sejam calculáveis
como probabilidade sujeita a variáveis aleatórias independentes, mas como
resultado de mecanismos interdependentes.
Quem decide custos, negocia contratos, define
elenco com agentes e produtores, não participa, não sabe dos processos de
contratação como foi dito nos veículos de Comunicação?
Como assim? Um diretor artístico de qualquer teatro do mundo
tem a responsabilidade – a obrigação – sob pena de ser dito incompetente e
incapaz – de conhecer os custos que o teatro está pagando. Para isto, além das atribuições diretas, possui uma equipe que trabalhando sob normas, lhe oferece, na melhor dos modelos, alternativas confiáveis. É sua
responsabilidade decidir o que será feito e até dizer quanto está disposto a
pagar para ter este ou aquele resultado. Não se trabalha numa ilha criativa imaginando que tudo dá. É dá função trabalhar sob pressão de
custos, fazer mais com menos, planejar, desenvolver, criar, negociar.
E não atribuam incapacidade de gestão a tamanho de ego. A ópera já teve, no passado, alguns poucos casos de
ególatras possessos que relativamente deram certo. Claro que isto, no passado.
Não venham dizer que para fazer alguma coisa é preciso ser controverso, provocativo ou outros adjetivos desta
natureza. Para ficarmos apenas na ópera, se usarmos esses adjetivos para alguns
gestores, parodiando Suassuna, que adjetivo usar para aqueles que realmente têm
feito a diferença nos seus teatros em outros países? Aqueles que além de provocação e controvérsia criativa, atuam com austeridade e rígido controle
orçamentário, em situações de crise econômica, social e politica e, produzindo
como nunca, sabendo que ampliar a ação cultural é desejável e necessário quando
as ameaças à sociedade são visíveis.
Temos que gritar no meio da arena: “Estamos no século 21”!
Como nos satisfazermos com um modelo que transforma um Teatro
Monumento em algo circunscrito a pouco mais que uma ou duas quadras no centro
da cidade, incapaz de ampliar suas possibilidades, de atender a missão de
Estado servidor que um equipamento desta dimensão possui? Não é disfarçando sua
ação com meia dúzia de bons cantores fazendo o melhor de si num terminal de
ônibus que se fará isto. Está errado.
As matérias recentes, com anúncios de reduções e retomadas de
temporadas, com menções de orçamentos diferentes, com projeções de custos
inconsistentes entre si, não soam como algo sério, ou que deva ser levado a
sério.
Não é possível imaginar que – transformados em fontes – os
jornalistas responsáveis pelas matérias publicadas até aqui não sejam sérios e capazes de reportar
corretamente o que ouviram. Estou com eles nisto e não acho aceitável que se atribua a especulação da mídia qualquer questão que contrarie os desejos pessoais dos envolvidos. Garanta-se sempre o direito de defesa - isto é inabalável, mas preserve-se a liberdade de investigação e de opinião, principalmente numa questão tão delicada e sensível para milhares de profissionais em todo o país. Ah, sim. A ópera possui no Brasil mais de 5.000 pessoas potencialmente envolvidas direta ou indiretamente na formação, criação e produção. É pouco. Por enquanto.
O orçamento do TMSP divulgado gira em torno de cento e tantos
milhões de reais, um número que não é preciso e variou conforme o aumento da crise econômica e alterações entre a expectativa x captação real de recursos via leis de incentivo. Na última
versão, simultaneamente à venda de assinaturas, foi anunciado que a temporada
de 2016 terá apenas 3 novas produções de espetáculos e uma reposição. Para quem
não sabe, reposição é a retomada de uma produção pronta do passado e sua reapresentação
na nova temporada. Como em 2015, antes do comunicado do desfalque, houve
cancelamento de apresentações tendo problemas de orçamento como justificativa,
a situação é agora mais grave.
(*) Quando comecei este blog há alguns anos, publiquei na apresentação que "entre outras coisas, escrevo sobre Cultura. Sempre que possível, ponho em discussão temas gerais da atividade cultural, estimulando a discussão sobre a Cultura erudita e os mecanismos de alfabetização para as artes. O foco profissional é a Ópera, a Música Erudita, o Teatro e a Difusão Cultural. Acredito na convergência entre as artes, na independência de pensamento, no diálogo, na negociação franca, na liberdade de expressão, no Estado franqueando direitos sociais e políticos, no direito universal de escolha do cidadão e particularmente na decisão de quais artes são de seu interesse. Busco estabelecer parcerias com as mesmas sensibilidades. Sempre com Rosana Caramaschi, companheira inseparável e norte verdadeiro. Meu blog comemora Carlos Gomes sem o exagero do fã-clube, mas como referência da universalidade da cultura."
Não mudei a disposição original e, revendo algumas coisas escritas há tanto tempo, são raras as vezes que identifico coisas que mudaria se reescrevesse no mesmo contexto. Infelizmente, vários desabafos e "previsões" se concretizaram. Mas, tem sido um delicioso exercício, apesar de não haver tempo para a regularidade diária como gostaria. Gosto dos "Carlos Gomes no mapa do Brasil" e continuarão firmes. Já os "Dilemas" sempre foram as colunas mais representativas para mim. Chegamos ao número 100. À primeira série de 100. Espero fazer mais. Só lamento que o número 100 tenha sido motivado pelo epicentro de um problema tão grave.
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