terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Carlos Gomes no Mapa do Brasil (33)

Honorato + Caninana
Rui de Carvalho
Ele nasceu em Vila Pinhal, hoje Itaara, no Rio Grande do Sul. Em tupi-guarani, Itaara significa pedra alta ou altar de pedra. Em Tupanciretã (terra da mãe de Deus), também no Rio Grande do Sul, fundou dois semanários.

Um dia
hei de morar nas terras do Sem-fim
vou andando caminhando caminhando
me misturo no ventre do mato mordendo raízes

Cobra Honorato é um poema modernista. Nele Cobra Honorato sai à procura de sua amada, a filha da Rainha Luíza, na Floresta Amazônica. Depois de tudo Cobra Norato volta para o Sem-fim, para as terras altas onde a serra se amontoa. Leva consigo a noiva, para estar com ela numa casa de porta azul pequininha pintada a lápis de cor. É lá que ele espera pela gente do Caxiri Grande, por Joaninha Vintém, pelo pajé-pato, por Augusto Meyer e Tarsila, por todo povo de Belém, de Porto Alegre e de São Paulo para a festa de casamento que há de durar sete luas e sete sóis.

Cobra Honorato é poema de Raul Bopp e se passa nas terras amazônicas. Lá em Manaus, no Bairro da Compensa, tem uma Rua Carlos Gomes. Em Belém, ladeando o Theatro da Paz tem outra. Em São Paulo, a Rua Carlos Gomes fica no bairro do Tucuruvi. Já em Porto Alegre é uma Avenida.

Em Itaara ou em Tupanciretã, infelizmente, não tem Rua Carlos Gomes. Nem Avenida, Praça, Alameda, Travessa ou Vila. 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Dilemas Contemporâneos da Cultura (59)


Não existem conceitos absolutos e estanques, é claro, mas, de um modo geral, no Brasil, a ópera é arrogante. Obviamente não é a ópera - o gênero - mas a maneira como a ópera se apresenta. 
Vamos pensar um pouquinho?
De que maneira as pessoas que trabalham na área se preocupam com seu futuro? 
São raros os profissionais pensando estratégicamente a maneira como se fará ópera nos próximos 20 anos no nosso país. 
A impressão que se tem é que tudo está na dependência de uma solução que virá num estalar de dedos, da terceira dimensão mais próxima. 
Mais ou menos como alguns pais que colocam seus filhos na escola e esperam que venham prontos para casa não lhes cabendo nenhum papel na sua formação.
É um horror. 
Hora, vamos refletir. O cenário não é inovador faz tempo. Como se pode desejar que a ópera "volte" a ser sucesso de público se muito pouco se faz para criar diálogo com platéias. Vou repetir: diálogo.
Ao mesmo tempo, temos situações pouco confortáveis.
A ópera é um espetáculo grandioso por si. Como é possível a diretores criarem um bom espetáculo com menos de seis meses de antecedência da estréia. Excluindo os três ou quatro que conseguem soluções rapidas, criativas e viáveis, o resto é uma tragédia. No entanto, estamos cansados de ouvir falar de estréias miraculosas ao sabor de  soluções primárias.
Fico nisto por enquanto. 
Se não se consegue um mínimo de planejamento e seriedade no trato destas questões elementares de produção, o que se dirá do esforço de atrair novos espectadores?

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Dilemas Contemporâneos da Cultura (58)

O jovem baco - 1884 (*)
William-Adolphe Bouguereau

É sempre uma boa surpresa quando somos brindados com uma coisa nova.

Aliás, brinde é a palavra mais adequada ao tema que trato hoje neste blog.

Vem de Manaus, um brilhante trabalho que recebi - felizmente incluído entre os poucos felizardos - de um dos mais brilhantes pensadores da música popular no Brasil: Edson Gil Costa. 

Provavelmente, você, leitor, não ouviu falar dele e, Costa irá me ligar dizendo que exagerei (olha, Edson, não precisa ligar, tá?). Mas é assim que o reconheço: brilhante. 

Costa integra o CDF, uma sigla bastante apropriada para designar o Clube dos Discófilos Fanáticos, um grupo de amigos que se reúne com freqüência para conversar sobre a Música Popular Brasileira.

Recebi um exemplar de um livrinho que ficou aqui amadurecendo desde início de 2010. Trata-se de um delicioso exercício de associação entre a música e o vinho.

Como diz no título complementar são "considerações muito pessoais sobre harmonização enomusical".

O neologismo fundamenta "algo para o qual simplesmente não existe fonte de pesquisa. [...] A harmonização entre eles (prazeres enológicos e musicais) pode ocorrer por antagonismo, mas nunca, nunca mesmo, pela indiferença". 

Após este discurso sobre o método, o livro nos informa que são cerca de 24.000 nomes para mais de 3.000 variedades de uvas viníferas. Destas, 150 são plantadas comercialmente.

Considerando que além de vinhos, no planeta existem inúmeros compositores e que os adjetivos "elegante, exuberante, chato, complexo, simples, austero, fechado, fresco e radiante" servem tanto para vinhos como para compositores, o autor selecionou 23 uvas brancas e 23 tintas que considera as mais interessantes e conhecidas, experimentou todas e harmonizou com 55 compositores (um se repete, pois se harmoniza com duas uvas) que tiveram 56 canções interpretadas por 56 intérpretes. 

Desta complexa avaliação, nasceu um livro delicioso que me permito apresentar a vocês em uma única taça.

Para que ninguém me chame de parcial, escolhi a primeira harmonização das uvas tintas que aqui reproduzo.

A uva escolhida a Cabernet Sauvignon cuja característica é ter bagos escuros e pequenos, casca espessa e pouca polpa. Aromas de cassis e pimenta, cerejas negras e grafite. Produz vinhos austeros, tânicos e muito coloridos quando jovem, mas, quando amadurecidos, tornam-se macios, equilibrados, longevos e fabulosamente complexos. Tem maturação tardia. Cor vermelho-escura com nota violácea em sua primeira juventude, que se torna vermelho tijolo com o tempo. Junto com a Cabernet Franc (sua prima) e Merlot formam o princípio do corte bordalês.

Apresentada a uva, principais referências, vinhos e origens, Costa apresenta o comentário enomusical: Cabernet Sauvignon considerada a rainha das tintas, é uma uva pequena e que se adapta muito bem em inúmeras outras regiões do mundo, produzindo belos e interessantes vinhos sem perder suas características principais. Esta uva, quando produzida dentro de suas melhores condições e sem misturas, apresenta vinhos intensos e de aromas bem pronunciados. Exatamente como a música de Tom Jobim que consegue ter interpretações maravilhosas em qualquer canto do Velho e Novo Mundo.

A música sugerida para esta harmonização é Dindi, de Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.

Qual do Dilema? Beber e ouvir vinho e compositor favorito, ou refletir sobre como identificar e trazer a público o que de inteligente e universal se produz no anonimato (quase) no Brasil.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Dilemas Contemporâneos da Cultura (57)


Hoje estou "perturbado", com a "macaca", da "pá virada", de "ovo atravessado". Se você tiver mais designativos semelhantes, mande, pois é sempre bom aprender coisa nova.
Comecei assim para me antecipar ao fato já que eventualmente um ou outro irá dizer que estou "com um outro destes ataques aí de cima". Só para não esquecer, não "dou piti", "ataque" ou coisa parecida. 
Lembrando o Millor Fernandes, "chato é o sujeito que não pode ver um saco vazio".
Pois é: estou cansado dos chatos de plantão. 
É impressionante o que tem de gente chata à espreita de uma oportunidade para dar um pitaco. Vejam alguns exemplos.
Prestem atenção e observem quantos são capazes de dizer sem a menor base que não há público para a ópera, para a música erudita. Que as empresas não patrocinam, porque não há qualidade. Vejam o que já foi dito de bobagem sobre a OSESP, salários de maestros. Sobre o Teatro Municipal de São Paulo então... 
É preciso entender que não foi falta de público, falta de dinheiro para patrocínio, falta de teatro o que levou à derrocada da Cia de Ópera do famoso maestro e seus parceiros. Eles mesmos disseram que tiveram público, tiveram dinheiro, tiveram teatros. Portanto, o problema é interno, coisa deles, entre eles e da maneira como dirigiram o negócio. Se tivesse dado certo como seria o ideal, tudo estaria perfeito. Como deu errado, a culpa é dos outros e, o que é pior, um monte de gente querendo "ajudar" dizendo com a maior cara de pau coisas das quais não entendem uma vírgula... Tsc, tsc, tsc...
A mesma coisa, o Municipal. O Teatro está lá, as obras em andamento, vai inaugurar em 3, 6 meses, 1 ano ou 2. Eles estão trabalhando, fazendo do jeito que acham certo, ninguém sabe direito quais as dificuldades. Posso não concordar com a estratégia, com o modelo adotado, com isto ou aquilo, lamentar o fenômeno, até ser contra esta ou aquela pessoa. Mas daí a sair batendo, dizendo qual a solução, dizer quem deve ocupar este ou aquele cargo, é um palpite de chato. 
Está cheio de gente que começa a crítica dizendo "se fosse eu, faria isto, isto e isto".
Habilitem-se chatos. Está cheio de cargos precisando de gente que faça direito.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Dilemas Contemporâneos da Cultura (56)

Pandora - 1896
John William Waterhouse (1830-1905)

Tenho um amigo que há muitos anos quando começa a desenvolver um tema muito amplo cita a frase de abertura de  antigo vídeo de treinamento: "No princípio era o Caos".

Pois é, parafraseando este amigo, no princípio era isto mesmo. Do Caos grego tudo foi criado e lá pelas tantas , Hefesto (deus do fogo, dos metais e da metalurgia) e Atena (deusa da guerra, da civilização, da sabedoria, da arte, da justiça e da habilidade) auxiliados por todos os deuses e sob as ordens de Zeus, criam Pandora, a primeira mulher.  Cada um lhe deu uma qualidade. Recebeu de um a graça, de outro a beleza, de outros a persuasão, a inteligência, a paciência, a meiguice, a habilidade na dança e nos trabalhos manuais. Hermes, porém, pôs no seu coração a traição e a mentira. Feita à semelhança das deusas imortais, destinou-a Zeus à espécie humana, como punição por terem os homens recebido de Prometeu o fogo divino e por aí segue a lenda ora contemplando a mulher com predicados absolutos, ora punindo-a pelos sujeitos a quem teve que se associar. 
Não tivesse Pandora casado com Epimeteu e este não tivesse em casa uma caixa fechada que ganhara dos Deuses contendo todos os males(*), talvez os homens fossem diferentes. 

Pandora tinha muitas qualidades e uma delas, a curiosidade, foi o comportamento manifesto que levou-a a abrir a caixa e deixar que todos os males escapassem. Não vou entrar no mérito da lenda e a discussão sobre a esperança. 

O valor simbólico oriundo desta prosa está na capacidade que os homens têm de destruir o que poderia ser muito bom ( a inveja de si próprio como procuro propagar ).

Há outra explicação que não a caixa de Pandora a justificar o desrespeito aos direitos autorais, a omissão de créditos de autoria, ao não cumprimento de contratos, à demora e até mesmo o não pagamento por trabalhos realizados, às ameaças veladas para não se comentar publicamente o furto de idéias, a prática desleal de cópia de projetos, a fragilidade das relações comerciais na atividade cultural?

Como justificar a falta de ética nas relações sem lembrar dos gregos?


(*) Fico sempre me perguntando por que raios os tais deuses teriam dado a Epimeteu uma caixa com todos os males? 
Está certo. Este tema dá margem a mais algumas semanas de texto. 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Dilemas Contemporâneos da Cultura (55)

xis - o império

Sabe-se lá quantas vezes passou pelo mesmo rito naquelas últimas semanas. Tudo muito difícil. As empresas sem a menor disposição para receber qualquer proposta de patrocínio...


Aliás, falar em patrocínio é uma tremenda hipocrisia. Não há repasse de recursos sem que haja uma leizinha de incentivo por traz, por mais simples que seja ou mais confusa que esteja. 


Não é patrocínio. Patrocínio é quando a empresa tira dinheiro do próprio bolso. 


Mas, vá lá... Vou continuar tratando disto como patrocínio para não insistir na tese correta e passar por chato mais uma vez.  


Pois é. Depois de certa insistência, tendo a indicação de um amigo comum para falar com determinada pessoa, ela conseguiu marcar uma reunião numa das empresas X do Mister X - um dos homens mais ricos do mundo. Repito: ela conseguiu marcar uma reunião numa das empresas X do Mister X - um dos homens mais ricos do mundo.


Duas pessoas muito jovens na reunião. Idade não é problema, mas despreparo é um horror. E o despreparo não é das pessoas, mas da empresa que emprega pessoas sem refletir corretamente sobre os seus próprios padrões de relacionamento. 


Quando uma das moças, gerente, diretora de marketing, tanto faz, disse que a empresa não tinha dinheiro e  que todo o investimento de uma das empresas mais ricas do mundo, do empresário entre os mais ricos do mundo, era para as ações de um tal Instituto do Mister X, ela chorou. Choro copioso, uma cachoeira do Niagara em cada olho. Tem que ser assim choro de cachoeira internacional por que o tal do Mister X, dono da empresa X, não é um xis vagabundo não... Ele é um AXE (Nada a ver com axé, axé music.... Lê-se "àquici" com este acento assim de pronuncia de infles...). O Choro foi de algumas dezenas de Niagara, choro internacional mesmo. Choro poderoso, sentido. Quando ela chora é fogo.


- Mas você tem certeza? - perguntou ela, sem se preocupar com as lágrimas, nem com o lencinho de papel que uma delas tirou da gaveta. Eu só estou precisando de R$ 100.000, 00 que serão pagos pelo governo. Não quero dinheiro... - chorou mais alto - do Mister X. - soluçou. Meu projeto é tão importante, para auxiliar tanta gente. Já tem 10 anos, só precisa deste restinho para terminar. E é - soluçou de novo - tão barato... Não e possível que na X1, X2, X3... X 20..., qualquer das empresas do Mister X não tenha este dinheiro ou a disposição de discutir isto...


- Não é que não tem... é que tudo isto é resolvido pelo Instituto do Mister X que já faz um monte de coisas com os incentivos e já gastaram tudo...


- É mesmo? perguntou chorando mais ainda... O que é que ele patrocinou neste ultimo ano?


- Se você prestar atenção vai ver que é muita coisa... - disse com orgulho infantil. 


Derrotada mais uma vez pela 23ª letra do alfabeto, ela se levantou, catou seus papéis e, mais uma vez, foi bater em outra freguesia.


Quando perguntei a Rosana Caramaschi por que ela chorou tanto, tive como resposta um olhar baixo, tímido que refletia apenas a humilhação, a revolta, o desprezo. 

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Carlos Gomes no Mapa do Brasil (32)


Entre votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo, renovam-se as esperanças de um futuro melhor. Assim é a principal característica do comportamento humano: entre conformar-se com um passado cheio de controvérsias e problemas, ou enfrentar a realidade sempre adversa, o homem prefere fixar-se nas expectativas de um futuro incerto e duvidoso sem jamais se lembrar que as suas insatisfações no tempo são fruto exatamente das frustrações de perspectivas projetadas. Se capaz fosse de adivinhar o futuro, certamente a humanidade sofreria mais ainda no presente uma vez que sabendo do inevitável por vir, menos faria. 


Será verdadeira esta premissa? É provável que sim. É quase certo que a eterna esperança de vitória sobre a sua  finitude, leve o homem a correr contra o tempo criando e ampliando suas marcas pessoais, dando margem ao reconhecimento por seus pares. 


Esta dimensão, entretanto, é vaga e fluida. Só não é quando a unanimidade provoca a transcendência, caso de Carlos Gomes que, com perdão pela pobreza da associação com as festividades recentes, é também nome de rua na cidade de Natal, no bairro da Candelária.